Publicado esta semana no Liga-te à Media, sobre as transformações no negócio dos media, o futuro da rádio e do consumo de conteúdo | LER |

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Não são raras as vezes que me pedem para falar sobre rádio. Acabo invariavelmente a discursar sobre algo a que ainda chamamos rádio mas que paulatinamente tem vindo a deixar de o ser. Ou, pelo menos, tem vindo a deixar de ser apenas rádio. E, para ajudar ao argumento, penso na imprensa. E na televisão. Para concluir que o problema não é a rádio. São os meios de comunicação social. Porque as estações de rádio e televisão e os jornais continuam a ser órgãos de comunicação social, mas mantê-los agregados ao conceito de meio de comunicação social é, actualmente, redutor.

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Publicado hoje, no portal Liga-te à Media |LER|

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Há alguns anos, criávamos um produto, dávamos-lhe um bom nome (entenda-se facilmente reconhecível, memorizável, sonante e com significado para o consumidor) e este entrava no mercado. A distribuição era razoavelmente a mesma, o preço definia-se em função da concorrência e do posicionamento. Fazia-se publicidade. Um bom anúncio na televisão poderia valer milhões e fazer ganhar outros tantos. Dependendo do produto ou do seu alvo, apostava-se na rádio e na imprensa. Talvez outdoors. Para alguns produtos, acções de relações públicas e eventos.

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Na conferência desta tarde, organizada pela Comissão para a Ética, Cidadania e Educação na Assembleia da República, e dedicada ao papel dos meios de comunicação social locais e regionais: desafios actuais e futuros, o painel dedicado à informação de proximidade nas rádios e jornais, apresentou diagnósticos e propostas de soluções para as dificuldades que a imprensa e a rádio local atravessam.

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João Palmeiro, presidente da Associação Portuguesa de Imprensa, utilizando dados da APCT referiu que, entre 2008 e 2012 desapareceram 12 publicações e que o investimento publicitário diminuiu 46%. Neste contexto, acrescentou que os classificados são apontados como investimento fundamental para os jornais.

Outro facto revelado, sobre televisão, prende-se com o número de web TV locais (68, actualmente).

Dos vários problemas identificados por João Palmeiro destacam-se a relação estabelecida com a gráficas que, neste contexto de crise terão de “ser mais do que o impressor”. A formação também foi apontada como um problema, revelando a necessidade de adaptar a formação disponível no Cenjor às necessidades actuais do jornalismo. Abordou também a questão da distribuição pelo correio e de como os CTT se assumem como parceiros fundamentais para a imprensa, sugerindo ainda a criação de um portal para a imprensa regional.

Paulo Faustino, Professor universitário, ainda sobre a imprensa, explicou que Lisboa e Porto concentram 65 a 70% da circulação dos jornais de informação geral e que, por isso, os jornais locais podem ser vistos como um complemento dos media nacionais, com um papel muito Importante papel junto dos luso-descendentes. Contudo, estes órgãos de comunicação social têm também uma imagem aparentemente menos qualificada, como referiu, especialmente porque, sabe-se, baseiam a sua produção em recursos humanos pouco qualificados. Mas também lhes falta uma orientação de marketing mais estruturada e agressiva, face a uma reduzida dimensão do mercado em que operam, concentração do investimento publicitário e dispersão empresarial. Faustino apresentou ainda algumas ideias sobre a inibição da aposta no investimento publicitário, resultante de um foco interno sem agressividade ou iniciativas com a comunidade, atomização do planeamento publicitário e fragmentação da imprensa regional.

Caracterizou o sector da impresa local e regional como sendo estruturada com base em micro empresas, para as quais a crise veio a agravar factores que são conjunturais e quase endémicos, nomeadamente ao nível dos custos de edição, o baixo nível educacional dos cidadãos, a concorrência dos outros media, a fraca orientação para o mercado, a deficiente gestão empresarial, o desfasamento entre vendas e custos, a emergência de produtos substitutos, nomeadamente o investimento em comunicação de marca bellow the line e, igualmente, o desenvolvimento tecnológico que multiplica as plataformas e a oferta multimediática.
Finalmente, Paulo Faustino recordou que a redução do porte pago afectou negativamente a circulação de jornais (APCT). Avançou ideias sobre o facto dos apoios do Estado a este nível serem muito importantes, não só pelo apoio em si mesmo, (que pode gerar alguma subsidio-dependência) para impulsionar o desenvolvimento das indústrias criativas em Portugal, nas quais o papel dos media é fundamental, por poder gerar um efeito social, económico e cultural muito importante. Defendeu que a nível dos media regionais poderia fazer sentido criar uma lógica de cooperação de empresas, não no sentido da concentração, mas da criação de relações ou cooperação estratégica.

O sector da rádio, representado pelos presidentes da ARIC e APR, contou com duas análises focadas no diagnóstico da situação.
“Até quando resistirão os meios de comunicação locais e regionais?”, questionou Nuno Inácio, referindo igualmente que “precisamos fazer o diagnóstico do sector” a nível global, focando a situação das estações de rádio em Portugal.
Sobre as associadas da ARIC, Nuno Inácio veio apresentar os dados mais recentes de um diagnóstico das suas associadas, destacando-se o facto de só duma elas apresentar crescimento económico.
Como referiu, há estações de rádio que passaram de uma quebra de investimento de menos de 20% para mais de 50%. Em todas, os maiores custos, são os custos com pessoal. No entanto, do ano passado para este, diminuiriam estes custos, porque, avançou Nuno Inácio, muitas estações de rádio despediram pessoas. Hoje, as rádios locais, continuou, têm cada vez mais colaboradores, numa lógica de rádio amadora ou, rádio comunitária. Ao nível da publicidade, as receitas das associadas da ARIC apresentaram pela primeira vez uma quebra superior a 50%. Explica-se, acrescentou, pelo facto destas viverem a partir do investimento de pequenas e médias empresas, mesmo micro empresas, como fez notar e, por isso, as rádios locais têm perdido anunciantes, face à falência destas empresas um pouco por todo o país.
Indicou ainda que 78% por cento dos clientes das rádios locais associadas da ARIC estão em incumprimento, mas contudo, 71% das estações garante estar a cumprir com os seus fornecedores, pelo que tal só se consegue porque, como explicou, os corpos sociais estão a injectar capital para o funcionamento destas estações de rádio.

Referiu também que as associadas da ARIC têm equipas reduzidas, normalmente com dez profissionais, prevendo-se que 33% dos funcionários das rádios associadas da ARIC venham a ser dispensados, equilibrando a balança de custos que, actualmente, tem nos recursos humanos a maior fatia das despesas. Verificaram ainda que os custos com energia representam 18% do total das despesas e que os custos com telecomunicações são 14% deste total. Nuno Inácio terminou a sua intervenção com uma frase chave, afirmando que “é chegado o momento de repensar para onde queremos ir e como queremos ir”, voltando a “1989 para pensar na razão pela qual queremos rádios locais”, questionando se estas servem as populações, se são representantes da liberdade de imprensa e se o serviço público prestado por estas estações de rádio é efectivamente relevante.

Por seu turno, José Faustino, presidente da APR, fez uma analise swot da situação. Começou por abordar a questão da proximidade que, de acordo com as ideias que apresentou, se afigura tanto como uma vantagem e como uma desvantagem.

Defendeu que, para haver proximidade, duas características têm de co-existir: a proximidade física e a o factor tempo. Na sua perspectiva, a rádio  tem a vantagem da proximidade porque há identificação entre ouvinte e locutor. É um meio privilegiado de comunicação que pode servir as diferentes populações, referindo-se a segmentos de mercado, adaptando a estrutura da comunicação. Além disso, referiu, mesmo face as marcas globais, as rádios de proximidade permitem a segmentação territorial.

As rádios são um factor importante para o desenvolvimento regional, acrescentou.

Numa perspectiva complementar, e sobre a questão dos recursos humanos, explicou que há vontade de colaboração amadora, gratuita e com grande qualidade. Contudo, reconheceu que a proximidade também pode ser uma ameaça. Um efeito negativo, avançou, é a ideia de que “os santos da casa não fazem milagres” e, portanto, os órgãos de comunicação nacionais não têm este problema, mas, por outro lado, não fazem uma comunicação de proximidade. Os anunciantes desvalorizam a proximidade porque não acreditam na efectividade da comunicação.

Além disso, há afastamento dos grandes centros de decisão, não reconhecimento do serviço prestado, vulnerabilidade e concorrência geral dos media. Também acrescentou que o auditório é outro problema porque é reduzido, indicando ainda a escassez de recursos humanos qualificados.
As exigências feitas a uma rádio local, acusou, são equivalentes às de uma media empresa, contudo, a facturação de uma destas estações de rádio é equivalente à de uma “pastelaria de bairro” e, note-se, não uma pastelaria num bairro de Lisboa, fez notar.
Perante este cenário, apresentou algumas soluções, dividindo-as em dois grupos: as da responsabilidade do Parlamento e dos Governantes, para a garantia da liberdade de programação e informação; o reconhecimento da rádio local como serviço público; o código do trabalho, direitos de autor e conexos, e código da publicidade.
Propôs a simplificação administrativa e de regulação; a diminuição das taxas e coimas; o cumprimento de quotas de publicidade; os tempos de antena e os apoios indirectos; a criação de infra-estrututas multimedia de uso comum; a criação de estudos de mercado e audiências; melhorar a formação profissional em contexto de trabalho e a criação de apoios para emprego jovem mas, principalmente, para a reconversão de profissionais. Como responsabilidade dos gestores de rádio, José Faustino indicou a adaptação de conteúdos aos auditórios; a utilização dos valores locais; a orientação para nichos de mercado;  o tratamento da informação global numa perspectiva local; o recurso a agências e fontes de informação; a colaboração com outros meios ou cooperação estratégica; a renovação e diferenciação perante a concorrência; a polivalência dos colaboradores; a aprendizagem em contexto de trabalho; o recurso à colaboracao graciosa; a criação de produtos comerciais personalizados; a fidelização dos clientes com bons produtos de publicidade e a abertura a novos circuitos de publicidade.

Carlos Magno, presidente da ERC, falou sobre a liberdade de expressão e  a regionalização, defendendo ser fundamental discutir a regulação no sector. Reconheceu que, para salvar estes projectos, “mais do que ter um sonho, é precisa muita paciência” para lidar com a legislação e burocracia associada, pelo que esta é uma questão que merece ser simplificada, a partir do território no qual estes projectos estão instalados.

Já Alfredo Maia, presidente do Sindicato dos Jornalistas, referiu que permanece, na nossa sociedade, a suspeita de que o jornalismo não é totalmente livre e de que os órgãos do Estado estão ao seu serviço, sujeitos ao controlo político. Foi um eloquente discurso, muito voltado para questões de liberdade de imprensa, regulação e legislação, sem tocar de forma directa, na problemática do papel dos meios de comunicação locais e regionais.

Mas a rádio continua a fazer todo o sentido: pela via mais autoral (que não morreu com as playlists), e com o lado da informação.” (daqui)

Concordo inteiramente, Inês, a Rádio continua a fazer sentido, mas desconfio que só pelo lado da informação. É que fiquei sem perceber o que quis dizer com “as playlists não mataram a via mais autoral da rádio”; ai não? A Inês consegue fazer “Rádio de Autor” com a música escolhida por outros? Tem essa capacidade de adaptação (teatral) de transformar em seu o desenho de outros? Ou, seguindo o exemplo, consegue preencher com cores os bonecos traçados de linha preta em papel branco, e no fim dizer que aquilo foi uma “criação” sua?

É por incompetência certamente, ando pela rádio há quase 26 anos e continuo sem perceber como é que isso se faz. Já experimentei, sem sucesso, todas as minhas tentativas resultaram num fracasso.

Se é possível fazer “bem feito” com a música das playlists? Claro que sim. Tendo como base essa lista, independentemente do que se gosta ou não, a Rádio é um produto que se vende, e podemos ser melhores ou piores vendedores, depende do empenho, chame-se-lhe “brio”, até da capacidade de abstracção (alienação?) de engolir uma música que não se gosta e dizer dela maravilhas. Sabemos que é assim que funciona, são as “leis de mercado” ou lá como se diz. Consigo ser competente nesse particular, e sei de quem o faz com grande mestria. Acrescentar às escolhas dos outros informação nossa, e já está, parece que fomos nós que escolhemos o que partilhamos, não é?

Mas isso é “Rádio de Autor”? Desculpe Inês, mas não me parece. Tudo o que assenta numa mentira, ainda que bem disfarçada, é um embuste, é uma peça de teatro manhosa, que um ouvido minimamente treinado como o nosso topa à primeira.

Se o ouvinte tem interesse nesta conversa? Francamente, não me parece. O ouvinte não é burro, mas acredita (quanto mais não seja por auto-defesa) que o que a Rádio lhe dá o melhor que tem, senão veja-se o poder de motivação dos telejornais, e a Rádio tem até, como diz e bem, mais credibilidade.

Se a “Rádio de autor” faz falta? Completamente de acordo. É o “autor” quem vai dar/criar sentido nesta Rádio cada vez mais igual. Em abono da verdade, hoje em dia, é mesmo a única coisa que me faz ligar o rádio.

[estou certo que esta minha dissertação extravasa largamente as intenções das palavras da Inês Meneses; esta minha “resposta” é absolutamente ficcional, foi apenas um pretexto para pegar no assunto ]

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