25 anos

Foi num início de noite em Setembro de 1987, na cave da Residencial Gameiro (antes desta se tornar num bar e depois numa garagem), morada da RVE.

Sentei-me perto do microfone junto à porta, à minha frente estava o (já falecido) Viegas. Dei-lhe o disco para as mãos; esta foi a primeira música que passei na Rádio, lembro-me como se fosse hoje. Tinha 13 anos, e tinha pedido uns quantos escudos para ir à loja do sr. Victor comprar o single de vinil, “ó mãe, vá lá, é só hoje”, a música tinha acabado de sair, e eu sabia que aquele ia ser um acontecimento. Sabem como é.

Naquele tempo era muito fácil, as Rádios chamavam-se “Piratas”, mas vestiam-se da autoridade das localidades e das pessoas que se diziam representar. Só na vila do Entroncamento havia duas. E era mais ou menos chegar e sentar, “deixa-me experimentar”, ver como é, passar uns discos, dizer umas graças.

Comecei com o Nelson e com o Zé Tó, imagine-se, eram precisos três para fazer um programa? Claro que não, mas a Rádio era também uma extensão das brincadeiras da rua, aquela era uma guerra onde se queriam amigos e companheiros da bola e das corridas de bicicleta.

Recordo-me que naquele tempo a Rádio ainda era bastante compartimentada. O conceito de estúdio auto-operável (capaz de ser manipulado por apenas uma pessoa) era coisa ainda demasiado avançada, e por isso (quase) obrigatório ter um “técnico”, alguém que só mexia nos botões. A publicidade existia em cassetes cujo arranque da fita se ajustava com o dedo ou com uma caneta; e depois, grande avanço, apareceram as cartucheiras. As músicas rodavam em discos de vinil, mas também nas cassetes, que eram regravadas vezes sem conta com as canções de um disco novo que alguém nos emprestava, ou do que ouvíamos na pouca Rádio que havia digna de nome. E roubávamos muita coisa uns dos outros, também.

Fiz de tudo: a base eram os programas de música, mas experimentei também os noticiários, as reportagens de rua, a gravação de jingles e até, pasme-se, a coordenação em estúdio de programas de desporto. Conheci muitas pessoas, fiz amigos até hoje.

Era tudo muito diferente, mas olho para trás e (com um sorriso) penso que podia ter acontecido tudo ontem, fosse eu outra vez um adolescente. Descontando o facto de ser agora impossível chegar a um estúdio de uma Rádio (FM) e pedir para sentar e “passar uns discos”, na sua essência, pouca coisa mudou.

A Rádio Pirata, aquela que experimenta, que arrisca, mora hoje nas teclas e nos ecrãs. De resto, se pensarmos bem, apenas trocámos de suportes. Haja curiosidade, um mínimo empenho e de preferência, uma mão cheia de amigos. O tempo, esse passa depressa.

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