Ouvir rádio pela manhã, ao final da tarde.

Chama-se Morning Becomes Eclectic, e costumo dizer que é o melhor “programa da manhã” do mundo. 10 da manhã na Califórnia, 6 da tarde em Lisboa.
Este (famoso) programa já foi conduzido por grandes Dj’s / locutores de rádio, com destaque para Nic Harcourt.

Basicamente, o que ele tem de especial é a actuação ao vivo (quase) diária dos melhores nomes da música Indie (Folk, Rock, Pop, Electrónica, etc.) e da World Music. Raras vezes um artista consagrado que se passeie na zona de Santa Mónica perde a oportunidade de actuar ali, ao vivo. Mesmo os artistas que não gostam de acordar cedo, vêem ali a oportunidade de divulgar a sua música, mas sobretudo, de angariar prestígio. Porque a KCRW é isso mesmo, uma marca importante, se não a mais importante no panorama das cooperativas de rádio norte-americanas.

Este modelo de radiodifusão assenta no pressuposto de que uma rádio é tanto mais “independente” quanto mais se conseguir afastar da influência da publicidade. Daí que, para subsistir financeiramente, se recorra do mecenato e de donativos/subscrições dos ouvintes. E é assim que consegue uma programação verdadeiramente independente, musicalmente coordenada pelos “animadores”, um a um, cada um ao seu estilo.
Contas feitas, é depois a publicidade que vai ter com eles, aproveitando a numerosa audiência desta estação, e o seu público alvo muito específico. Evidentemente que tal só é possível porque os Estados Unidos da América têm o tamanho e a população que se conhece; esta realidade de financiamento dificilmente se consegue implementar em países ou regiões de menor dimensão (se bem que, neste contexto em particular, a “aldeia global” de Marshall McLuhan é já uma realidade)

Noto também, por curiosidade, que só em países com uma legislação como a nossa (?) encontramos resistência na publicação em podcast de programas de música. A nossa RTP por exemplo, justifica-se com “questões que se prendem com os direitos de autor” para não permitir o download em diferido dos seus programas de divulgação musical. Permitem o streaming, mas não o download (mas este já é outro assunto).
Estas estações de rádio norte-americanas (a KEXP é apenas mais um bom exemplo), “gigantes” em comparação com as nossas em termos de projecção e número de ouvintes, não estão minimamente preocupadas com isso. Ou é por ser a legislação, outra…

A KCRW cedo encontrou na internet um aliado importante. [em bom rigor, a generalidade das Rádios o fez]. Por isso, quando a “sintonizamos”, não só temos a possibilidade de ouvir (com boa qualidade sonora) os seus vários canais/podcasts, mas também podemos entrar estúdio adentro e assistir à emissão, em directo (e em diferido), com um nível de realização de vídeo impressionante.

Arrisco dizer que este “programa da manhã” segue a tendência geral: cada vez mais as pessoas usam o vídeo para ouvir música (é já corrente a expressão “estou no youtube a ouvir música”). E por muito que eu, enquanto ouvinte, considere isso uma má escolha, a verdade é que dou por mim a assistir ao “programa da manhã” de uma rádio californiana que está a transmitir em directo, vídeo e audio de alta qualidade, a performance de um dos meus artistas preferidos da actualidade.

E tivesse eu uma carteira mais recheada, garanto-vos que também contribuía. A partir daqui, cidade de Lisboa, Portugal, 2012.

2 comments
  1. Ola Pedro.

    Repara no entanto que o modelo que falas, usado pelas estações públicas americanas não é isento de críticas. Eles têm muito o sponsering que traz críticas em vários programas de abordagens tendenciosas devido à dependència a esses mecenas. O modelo da rádio pública americana deve muito à abordagem “pioneira” da Pacifica radio (que ainda emite) e que apostou numa rádio subscrita pelos ouvintes. Aí as críticas e evolução da rádio são outras. Por outro lado a evolução da rádio nos EUA seguiu trâmites bastante diferentes dos Europeus (onde o peso do Estado foi e é muito maior). Apesar das críticas parece-me no entanto que o modelo é valável.

    Outro ponto a ter em consideração e que se prende directamente com a sobrevivència das estações públicas nos EUA é a descentralização originada pelos podcasts. Enquanto que antigamente os ouvintes faziam donativos na estação onde ouviam os programas (porque muitos eram e são re-transmitidos), neste momento há uma grande deslocação dos donativos directamente para as estações que produzem os programas que os ouvintes gostam. Este “movimento” tem, na minha opinião, um ponto positivo, obrigar as estações locais a esforçarem-me mais por produzirem programas que foquem a realidade local, ligando-se mais à comunidade. Como em tudo, onde uns veem problemas, outros fazem delas oportunidades.

  2. Obrigado pelo teu comentário Ricardo. Estou completamente de acordo.
    Contudo, apesar de ter feito essa referência às “rádios comunitárias” (para efeitos de contexto), o foco principal do texto pretendeu ser o encurtar da distância nos caminhos da Rádio, a possibilidade de ouvir, separados por meio mundo, um programa de Rádio com o qual me identifico, e que representa, tal como referes nas entrelinhas no teu comentário, a liberdade de se fazer o que se gosta, e bem feito, com condições, e também com retorno. Uma Rádio assim é possível; o caminho é esconso, mas sinto que devemos agarrar e divulgar bons exemplos como este.
    abraço.

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