“Piracy is the new Radio” ?

“[piracy] doesn’t affect me because I look at the Internet as the new radio. I look at the radio as gone,” said Young. “Piracy is the new radio. That’s how music gets around … That’s the radio. If you really want to hear it, let’s make it available, let them hear it, let them hear the 95% of it.”

Esta notícia foi largamente difundida nos media no final desta semana, e revela um Neil Young frontal e destemido, no topo dos seus 67 anos de idade e de uma carreira inquestionável.

Achei curioso tais palavras virem directamente da boca de alguém que ganhou (muito) dinheiro precisamente com o velho modelo de negócio da indústria discográfica, porque não tenho dado conta de artistas dessa geração com um espírito tão arrojado e palavras ditas a direito. E ainda que (ironia), na sua página oficial não seja possível descarregar seja o que for, é-nos oferecida uma composição quase poética, trinta e sete minutos de vídeo/audio que representam um elogio à masterização e à qualidade sonora.

A notícia do Telegraph revela que essa é precisamente uma das suas maiores preocupações, a de ver a música reduzida a “5% da qualidade sonora original”, consequência da expansão universal do formato mp3 (opinião que partilho).

Mas o mais interessante nesta notícia é a associação da “pirataria” na Rede com a Rádio. De repente ela apresenta-se tão desviante quanto natural, e num segundo lembrei-me dos tempos em que passava serões a gravar músicas directamente do rádio para as velhas cassetes. Era um jogo de paciência, apanhar aquela música o mais completa possível, fugir das vozes e dos “jingles” que lhes interrompia o ritmo, rodar com um lápis a fita para acertar com a próxima que aparecesse e ali fizesse sentido. É uma recordação bonita, quase romântica, partilhada por muitos dos que me estão a ler.

Agora, a questão fundamental: nesse tempo, alguém se preocupava com questões de legalidade? Algum de nós achava imoral ou criminoso gravar umas músicas da emissão do “Som da Frente” às duas e meia da madrugada?

Todos sabemos, ainda que intuitivamente, que as bandas e artistas ganharam muito com esta partilha, com essa troca de “cassetes”. Era um tempo em que os discos eram caros e/ou raros. Porém, mais de vinte anos depois, os discos continuam caros e ninguém continua preocupado com isso. O que mudou foram os suportes: a Rádio (enquanto “difusor”) é agora a internet, e as cassetes têm o tamanho de um terabyte. E a indústria multimédia, mais arrepiada que nunca.

Não partilho inteiramente da opinião de Neil Young, no sentido em que ele “substitui” a Rádio pela internet. Está demonstrado que a Rádio, agora através de canais mais diversificados (que para além do FM incluem também a internet, a televisão e o vídeo) continua a ocupar um papel central na divulgação musical, e que os seus ouvintes, independentemente do suporte, continuam a ter com a Rádio uma relação de fidelidade e confiança, fundamental na promoção de bandas e artistas. A Rádio continua a ser uma peça importante na engrenagem da indústria musical.

Mas tal como afirma Matt Peckham (neste artigo), no momento em que a sociedade se julgar livre de tomar como seu (ou seja, gratuitamente) tudo aquilo a que conseguir deitar mão, algo de muito importante se desmorona. Por um lado porque os criadores de conteúdos também precisam de comer, mas por outro, e sobretudo, porque não devemos perder a noção do valor subjectivo das coisas, do preço associado ao investimento e ao mérito daqueles que dedicam a vida a gerar os produtos (de qualquer espécie) de que nós, consumidores, tanto precisamos. Basicamente, o que pretendo dizer, reduzindo esta ideia ao máximo, é que não há grande diferença entre um disco e um par de sapatos (claro que há, eu sei que há, é apenas um exemplo).

E se a Rádio de divulgação musical tradicional (FM) sempre foi gratuita para o ouvinte (sustentada pelo Estado ou pela publicidade), as novas plataformas online implicam o custo da ligação à internet, e o preçário nem sempre simpático dos serviços que nos garantem “milhões de músicas” ao alcance de um clique.

E se as mesmas músicas estão disponíveis na rede, para quê pagar por elas?

E para quê pagar por música de artistas consagrados se cada vez mais novos artistas nos oferecem legalmente música de semelhante e superior qualidade?

Sou dos que acha que nunca se fez tanta e tão boa música. Acontece que a que está na internet podemos escolher, e a que sintonizamos no Rádio do carro, não. É aqui que está a grande diferença.

[entre muitas outras, mas isso é matéria para outros textos]

 

2 comments
  1. Há uma outra leitura… do agentes de pirataria (ie, quem faculta, os foruns de partilha, quem aconselha) poderem ter o mesmo papel dos DJs de outrora… isto é uma leitura tangente claro, mas não tão afastada da realidade assim.

  2. entendo. e esse papel é igualmente desempenhado pelos “blogers”, por cada um de nós nas redes sociais, pelos “podcasters”… e muitas vezes sem sair da legalidade.

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