Energetic weekend I

An all-Portuguese post, concerning the aniversary of a very popular radio station that started in the 90s and that presented the listeners with a revival weekend.

A emissão especial, relativa aos vinte anos da rádio Energia, pode resumir-se a uma palavra: Sucesso. Absoluto. E ainda não acabou…

O processo começou discretamente, crescendo diariamente no Facebook para, no fim de semana de emissão, contar com uma página de 2,387 amigos e um grupo com 1904 amigos (and growing…). Na semana que antecedeu a emissão de aniversário, os media fizeram uma elevada cobertura do evento, com reportagens, entrevistas e notícias sobre o fenómeno do regresso, ainda que temporário, da Rádio Energia.

Criada em 1991, por iniciativa da empresa Rádio Jornal SA (que detinha parte do capital da TSF, razão pela qual tantas vezes a Energia foi considerada a “irmã mais nova da TSF,) a rádio Energia ocupou a frequência dos 92.4 FM em Lisboa. Emídio Rangel foi o mentor do projecto, líder e motivador de equipas, daquele que até hoje é considerado o mais inovador e irreverente da rádio Portuguesa. Da equipa fundadora constam algumas das figuras mais importantes da rádio e televisão contemporâneas: Nuno Santos, o actual director de informação da RTP, José Mariño (director musical da RDP), Augusto Seabra (voz-off da SIC), ou Paulo Bastos (TVI). Mas também, Sérgio Noronha, João Rolo, Paulo José, Eurico Nobre, Teófilo Fernando, Myriam Zaluar, Henrique Amaro, José Coimbra, Mónica Mendes, Vanda Miranda, Miguel Peixoto, Nuno Reis, Jorge Alexandre Lopes, Vitor Marçal, Sofia Louro, João Rôla, Ana Sofia Carvalheda, António Freitas, Marta Seabra e muitos outros que fizeram parte do grupo e ainda hoje se dedicam à comunicação mediática.

Com uma forte sintonia entre profissionais e ouvintes, a rádio não se fazia tanto pela música, mas mais pelos temas que respeitavam à própria sociedade. Talvez fossem tempos mais interessantes, menos cépticos e apáticos. Em alguns casos, havia mesmo agressividade nas palavras e nos temas tratados, mas também havia música nova (muito nova) e uma aposta na música Portuguesa não apenas porque sim, ou porque as quotas assim o exigiam. Não eram sempre os mesmos artistas ou bandas a tocar e a reportagem nos concertos ao vivo ia além do comentário das figuras públicas que por lá passavam. O mesmo acontecia com os directos. Talvez a influência da TSF estivesse presente, revelando algum atrevimento, quer no tratamento dos temas, quer na música, com uma selecção menos repetitiva, unindo de forma muito interessante géneros tão diferentes como o pop, o rock, o rap ou o metal.

Ainda em 1991 as emissões da Energia alargaram-se ao Porto e, em 1993 chegaram a Coimbra. No mesmo ano, a demissão em bloco da equipa comprovava o desnorte e as desavenças com a administração. Três anos depois, a Energia alterou o seu nome para FM Radical. Aparentemente, pouco mudou. Mas só aparentemente. Algum tempo depois, silenciou-se de vez. Em 1997 o Grupo Renascença comprou a frequência da antiga Energia para criar a Mega FM e nada voltou a ser como antes.

Desde então, muito mudou na rádio em Portugal: da formatação à digitalização; da consolidação à regulação, vários aspectos, paralelamente à evolução da estrutura social, dos media e do próprio fenómeno da comunicação, contribuíram para o contexto actual da rádio. Se atentarmos à perspectiva dos profissionais da rádio, encontramos duas visões, bastante diferentes, embora não incompatíveis. Se, por um lado falta criatividade e talento à rádio, se os formatos são demasiado redutores, as playlists apresentam-se repetitivas, limitando igualmente o trabalho dos profissionais; por outro, a rádio está cada vez mais recheada de novos talentos, os conteúdos são cada vez mais criativos (já lá iremos), aparecem sucessivamente novos formatos, as playlists são construídas pelos ouvintes (ainda que indirectamente). Incompatível? Só aparentemente. As pressões são várias, principalmente de carácter económico. Os profissionais reconhecem que muito do que hoje temos na rádio resulta de uma gestão demasiado voltada para objectivos de rentabilidade cujo incumprimento dita o fim do formato: há muito que a rádio se profissionalizou e tornou assumidamente um negócio. A Energia acabou exactamente no período de viragem para a rádio, quando se foi abandonando a gestão de rádio-por-amor-à-camisola herdeira das rádios piratas e lentamente implementando um modelo de gestão pragmático, baseado em processos de reengenharia organizacional, repensando e redesenhando as práticas profissionais e a estrutura da própria rádio enquanto organização, desenvolvendo novos produtos, implementando uma nova cultura organizacional para aumentar a produtividade e reduzir os custos (a todos os níveis). Tal correspondeu à implementação de playlists “fechadas” como garantia de qualidade e da identidade da estação, facilitando ao ouvinte a identificação da estação através da música; ao mesmo tempo, a especialização foi no sentido da imitação dos formatos de rádio ingleses ou norte-americanos, adaptados ao contexto nacional, testando-os junto da audiência e adoptando os que foram revelando maior sucesso. Aparentemente, os ouvintes querem rádios musicais. Será?

Paralelamente, surgem novos valores para a rádio: são jovens, querem trabalhar e estão à partida formatados, pois passaram a adolescência a ouvir rádios formatadas e playlists repetitivas, assentes na premissa de “mais música e menos palavra” e não no da Energia de “não existe outra rádio assim”. O que acontece é que os profissionais da rádio, herdeiros dos grandes valores da rádio portuguesa, bem como da inovação e rebeldia das rádios piratas, quando não se identificam om a nova organização das práticas profissionais afastam-se da própria rádio (ou foram afastados). Muitos procuram alternativas no éter ou em outros meios de comunicação. A rádio fica, definitivamente, mais pobre. Tem comunicadores com grande potencial, mas falta-lhes qualquer coisa. Talvez quem os ensine… E os ouvintes vão ficando pela música… Até ao momento em que o acesso à Internet se massifica e a rádio tem cada vez maior dificuldade em manter a sua força e vitalidade, por força da diversidade da oferta de música e entretenimento. Ao mesmo tempo, o modelo de negócio, não estando esgotado, perde terreno face à multiplicação da oferta e à crise económica que lentamente foi atacando os meios de comunicação. A rádio precisa, uma vez mais, de cortar nas despesas, de reinventar a publicidade e de reconquistar ouvintes. Segue-se a via mais simples, apoiada no desenvolvimento tecnológico que permite hoje que uma estação de rádio seja totalmente automatizada. Da mesma forma, é a tecnologia que liberta o locutor para outras tarefas em nada se relacionam com a gestão musical, dedicando-se à produção dos conteúdos do seu programa e à interacção com ou ouvintes, em todas as plataformas onde estes se encontrem. Ou seja, a rádio pela música, pela formação, divulgação e mesmo, defesa da língua e cultura, acabou. A música é o que “os ouvintes” querem ouvir. E todos sabemos que ninguém gosta do que não conhece… Mesmo com quotas de música, a situação mantém-se. Independentemente da produção ser boa ou má, muita ou pouca, o que é facto é que, se deixarmos à avaliação dos ouvintes a música nova (a mesmo nova, desconhecida), corremos o risco de limitar a novidade.

O aniversário da Energia corresponde também a vinte anos de histórias e recordações: cabelos mais curtos, em alguns casos tão curtos que desapareceram. Não há barrigas flácidas, mas há o peso dos anos: as vozes amadureceram, mas a loucura mantém-se e a energia do regresso motivou cada um destes profissionais para a produção de um fim de semana de rádio único em Portugal. Uma vez mais, a Energia recuperou o seu espírito e soube envolver os ouvintes. Desta vez, numa estreita relação entre o tradicional FM e o digital, através da emissão online e dos comentários na página do Facebook, com publicações constantes da equipa e, acima de tudo, dos ouvintes. Foi o bichinho da rádio que deu o mote para a ideia da celebração e reuniu a equipa fundadora para três dias de emissão, com voluntariado e voluntarismo, sendo o último dia, reservado à interpretação de cada locutor do que poderia ser hoje a rádio Energia…

2 comments
  1. Sónia said:

    Excelente post, mas peca por omissão🙂 Falta referência ao Augusto Fernandes que actualmente se pode ouvir na Antena 1 e que fez parte da Energia desde o primeiro momento.

  2. Paula Cordeiro said:

    Não estão todos… Daí o “entre outros” e o I, significa que haverá um II, um post com o nome de todos os envolvidos.

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