Rádio Clube. 36 Out.

Não estamos em tempo de sinergias.

Fazer parte de um grupo de media é nada mais do que fazer parte de uma empresa que gere várias marcas.

De forma independente.

Será? É  que parece, face ao caso do Rádio Clube, bastante controverso e, embora fácil de entender, com elementos que poderiam dificultar essa compreensão: fácil porque, do ponto de vista empresarial, o produto não está a corresponder às expectativas e objectivos, logo, termina-se o mesmo; complexo porque não se trata de um produto que dê resultados em tão pouco tempo, porque está integrado num grupo de rádios e pode beneficiar das sinergias de grupo (também elas económicas), porque não foram respeitados os pressupostos legais para o seu encerramento (Estrela Serrano, Público1), porque, afinal há produtos no mesmo grupo em situação igualmente débil (a avaliar pelas audiências da Best Rock, com menos de 1% de share, ou da Mix FM, que deixou de fazer parte dos resultados do Bareme apresentados nas vagas de 2009)… Porque, para além das sinergias, a lógica de grupo prevalece em termos da estrutura organizacional (direcções partilhadas, como a informação ou multimédia, bem como profissionais em áreas específicas como o trânsito ou o jornalismo). Donde, esta lógica só se aplicará à redução de custos e nunca à gestão de projectos. É uma visão. Talvez demasiado economicista para ser amplamente aceite. Note-se que em boa medida, a justificação para o seu encerramento passa por este ser um projecto “tecnicamente complexo e dispendidoso”, razão pela qual irá ser desenvolvida uma nova marca, um projecto mais barato, sem pendor informativo.

Por outro lado, o grupo pretende continuar a apostar em desenvolver os restantes projectos do grupo. Mais uma vez, voltamos ao mesmo: grupo sim, mas para a poupança de recursos. Por outro lado, esta pode também ser uma decisão que pretende reposicionar o grupo como gestor de estações musicais, cobrindo o espectro de diferentes géneros/especialidades. O que reforçaria a sua imagem de marca (grupo), neste domínio, não se dispersando entre vários projectos. Não sei.

Mas, se esta gestão que se baseia na partilha de recursos humanos, com técnicos, jornalistas, produtores, programadores, trânsito, design e comerciais, não poderiam estes 36 trabalhadores continuar no activo, alimentando as restantes estações? Provavelmente não, pois são desnecessários para o cumprimento dos “serviços mínimos”, neste domínio.

É estranho que os trabalhos destes possam ser usados em diferentes estações quando os mesmos são funcionários apenas da empresa que detém o alvará de uma das estações. Não deveriam estes ser funcionários da MCR ao invés de funcionários do Rádio Clube? As informações são várias, bem como os comentários na web. Contudo, as notícias dizem que a MCR entrará em processo de reorganização estrutural, implicando a rescisão de 36 colaboradores. Não se diz que são especificamente afectados os que estavam ligados ao RCP. Contudo, na Lusa (através do Jornal Público) hoje, especifica-se que são, de facto, profissionais ligados ao Rádio Clube. Então, ao contrário do que já havia sido dito, não é propriamente uma reestruturação do grupo. Pelo menos dois jornalistas já foram notificados, mas as notícias continuam a não especificar se este despedimento abrange profissionais de outras áreas.

O sindicato dos jornalistas, tem uma visão sobre a matéria que atenta ao perigo da diminuição da diversidade e pluralismo, pelo desinvestimento na informação que o grupo faz. Uma vez mais, tal representa a visão economicista de gestão dos media que procura rentabilizar os seus produtos. Para isso, terá de ir ao encontro das necessidades e expectativas da audiência. E, embora existam uns quantos interessados neste tipo de produto, não são suficientes para o sustentar. Menos ainda para o tornar rentável.

É significativamente mais barato gerir rádios musicais: o investimento em recursos humanos é muito menor, ao mesmo tempo que a possibilidade de rentabilização, pela natureza de entretenimento do produto em si, é também maior, porque permite investimento publicitário sobre as mais variadas formas. Algo que em programas de informação não acontece devido a restrições legais. No sistema de mercado em que nos encontramos, decisões como esta não são se admirar, especialmente porque, mesmo quando as empresas investem num produto deste género, limitam esse investimento ao mínimo, pelo que dificilmente conseguem fazer um produto que se equipare ou que faça frente à concorrência instalada. E, também nos media, boa parte do sucesso depende da imagem de marca associada a cada estação. Esta, demora décadas a construir-se. O que, por outras palavras, quer dizer que, por muito que a TSF diminua a sua qualidade, para os anunciantes é (talvez será) sempre a rádio-notícias, a estação de referência. Donde, para a enfrentar, o posicionamento não pode ser o mesmo. Ou até pode, mas usando de forma inteligente o que o meio rádio tem para oferecer e a sua natural ligação à Internet para, talvez, chegar a um outro público e chamar à atenção de outros anunciantes.

Por agora são 36, mais os que entretanto “saíram” do 24 horas, outros tantos do Global, fora os que vão “saindo” isoladamente de outros meios… Por este andar, não tarda podemos formar uma NOVA redacção só com estes profissionais…

|1|

“Esta alteração de rádio generalista para rádio de música não foi transmitida à Entidade Reguladora da Comunicação (ERC), como estipula a Lei da Rádio.
Estrela Serrano, membro da ERC, afirmou ontem ao PÚBLICO que qualquer alteração ao projecto inicial teria de ser comunicada e autorizada. A conselheira lembrou que em Dezembro de 2009 a ERC emitiu sim uma deliberação, respondendo a um apelo da MCR, onde autorizava a troca de projectos entre dois emissores do grupo – a Rádio XXI, emissor local, que alojava a rádio musical M80, e a Rádio Regional de Lisboa, emissor regional sul, que alojava o Rádio Clube”.
|Ler Mais|

5 comments
  1. Pressman said:

    “Mas, se esta gestão que se baseia na partilha de recursos humanos, com técnicos, jornalistas, produtores, programadores, trânsito, design e comerciais, não poderiam estes 36 trabalhadores continuar no activo, alimentando as restantes estações? Provavelmente não, pois são desnecessários para o cumprimento dos “serviços mínimos”, neste domínio” -citei.

    Pois provavelmente SIM.
    De tal maneira que, na pressa e na fogosidade do despedimento, foram esquecidas necessidades prementes no campo da produção, do trânsito e até do desporto.
    A MCR não fica com ninguém especialista em desporto, falha a sinergia de trânsito com a TVI e ficam jornalistas que, pela sua idade/experiência bem precisariam de um maior apoio.
    No entanto fazer jornalismo radifónico tipo “copypaste” tem alguma penalização?
    Será que a ERC alguma vez se poderia pronunciar contra os “noticiários” da Cidade FM?
    Os 36 descontinuados do RCP, serão em breve substituídos por 36 estagiários a custo ZERO e a Inspecção de Trabalho até poderá visitar a Media Capital Rádios e nunca encontrará recibos verdes, estagiários ou outro tipo precários. Nunca.

  2. Paula Cordeiro said:

    Pois…
    Mas para os “serviços mínimos”, não precisam de mais. Lógica economicista pura e dura. O que não tem nada a ver com qualidade, diversidade, pluralismo ou responsabilidade social. Que os media (tinham) têm?…

  3. paula cardoso said:

    Perfeitamente de acordo!!!!!

    Responsabilidade social é o que já não existe num País completamente Descontinuado tal como a nova ERA RCP, programação DESCONTINUADA.
    Não dá lucro acaba!Não dá lucro porquê? Incompetência? Dinheiros mal geridos?
    E os profissionais descartam-se? A 4 dias de acabar é que se informam as pessoas? E os responsáveis, também ficam no desemprego? E outros deixam se acabar os contratos para mandar embora sem quaisquer indeminizações? VALE TUDO? parece que sim! As próprias leis e os direitos das pessoas estão em risco de se esgotarem num País em perfeita crise de valores.
    Lamentável.

  4. Nuno Domingues said:

    Salut!!

    Os profissionais que as empresas Rádio Comercial e Rádio Regional de Lisboa, pretendem descontinuar, perdão, despedir, têm de facto em comum, terem trabalhado recentemente para a marca Rádio Clube. A marca para onde foram empurrados por uma administração que apostou numa rádio de palavra, generalista e de forte pendor informativo. Porque, mais do que audiências, era importante ter no “portfólio” de marcas, uma que gerasse influência, e que ao mesmo tempo servisse de máquina produtora de informação que as outras difundissem. Uma parte dos trabalhadores que as empresas querem despedir passaram 3 anos na marca Rádio Clube, e entre 10 e 20 na Rádio Comercial. Acresce a tudo isto, o segundo maior grupo de rádio em Portugal, assume com este gesto um claro desinvestimento (eu arriscaria chamar-lhe chacina) no sector da informação. A culpa terá de ser encontrada entre quem faz (e pode ter feito mal), quem gere ( e pode estar a gerir mal) e quem manda ( e pode estar a mandar mal). O futuro, se o houver, logo dirá…

    Bye!!

  5. Pressman said:

    Nuno Domingues escreve direito….
    Lamentavelmente um dos 36. Uma pena, um desastre de um administrador medíocre. E de uma Empresa que não irá longe!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s