Rádio Clube. Mudança? Encerramento.

Não é propriamente uma surpresa. Muitos condenaram o projecto ao fracasso desde o seu lançamento.

Agora, é oficial. A administração da Media Capital anunciou o encerramento do Rádio Clube. Na mesma frequência, a partir de 11 de Julho, 3 noticiários por dia e música dos anos 60 e 70. Retrocesso ao formato da Nostalgia? Talvez. Mas não será esse o aspecto relevante da questão.

Embora preocupante, também não é a rescisão com 36 colaboradores. Isto porque não sabemos de que tipo de colaboradores se tratam: serão jornalistas, locutores, produtores ou outros elementos da equipa fixa, ou estaremos a falar de colaboradores eventuais, cronistas ou convidados para apresentarem um determinado programa?

Preocupante é o insucesso do formato.Não consegui deixar de pensar que cada país tem a audiência que merece… Se bem me faço entender… Ou seja, quando a maior parte dos espectadores de televisão riem à gargalhada e perdem o seu tempo a ver um programa como o “Salve-se quem puder” no qual, duas equipas enfrentam paredes e tentam atravessá-las através de buracos, sendo que, não conseguindo, caem na água de uma piscina, é caso para dizer… Salve-se quem puder, pois formatos de rádio com conteúdos de palavra que ultrapassem a mediania e a gargalhada fácil não têm sucesso. Não é que os conteúdos do RC fossem eruditos, contudo, ouvir pessoas na rádio dá muito mais trabalho do que ouvir música (de preferência sempre a mesma, a que se ouve na televisão, no ginásio, nas discotecas e outros locais sociais). É o fenómeno do conteúdo básico, para telespectadores que escrevem mau português (basta espreitar a página no Facebook do programa) e que, portanto, por muito que afirmem ter interesse em conteúdos um pouco mais complexos, têm enorme dificuldade em os entender e interpretar, abandonando-os para conteúdos mais fáceis de digerir.

Contudo, entre quem ouve rádio e vê televisão (embora por vezes sejam as mesmas pessoas) há algumas diferenças, pois através da rádio os indivíduos são capazes de aceitar mais facilmente conteúdos aparentemente difíceis. A ausência de imagens obriga a simplificar a mensagem sem, contudo, eliminar o seu carácter. Por outro lado, estão especialmente vocacionados para escutar humor, recordar aspectos relacionados com a sua juventude escutar e conversas que se relacionem com o seu quotidiano, que sejam um reflexo deste e que os deixem bem dispostos.

Por esta razão, e não tanto pela maior ou menor capacidade da direcção de programas (a selecção da mesma também nunca foi consensual, menos ainda as opções tomadas, bem como a tendência para trazer para a rádio comunicadores televisivos e a incapacidade de gerir protagonismos pessoais), o formato dificilmente cumpriria os seus objectivos: ultrapassar a Antena 1 e TSF, atingindo o equilíbrio financeiro este ano. O que falhou?

Aparentemente, a questão financeira não foi o principal problema, mas sim as audiências. E porque não teria audiências? Porque se posicionou a meio caminho entre as suas concorrentes, onde não há ouvintes. Esses não estão vocacionados para um projecto desta natureza. Os que estão, escutam a TSF há demasiado tempo para a abandonarem. Outros identificam-se com o formato, as vozes e acompanhamento da actualidade, pelo que não o iriam abandonar, mais pelo hábito e notoriedade associada à TSF do que por qualquer outra razão. O mesmo, com as devidas diferenças de formato e ouvintes, se aplica à Antena 1, pelo que para conquistar audiência, o RC teria literalmente de roubar ouvintes, fazendo mais e melhor. O que, em 3 anos, é particularmente difícil. O que, com as incongruências e indefinição na programação/locutores, bem como instabilidade constante, se tornou impossível. Juntemos uma má audiência e estaremos perante uma mistura sem sucesso…

7 comments
  1. jpmeneses said:

    Concordo com tudo o que a Paula diz, embora me pareça que se pudesse pôr mais ênfase no (fraco) desenho do projecto – que nasceu torto e nunca se endireitou. Não havia, parece-me, um posicionamento claro nem uma estratégia bem pensada. Dois exemplos, do arranque: a informação tinha força de manhã, mas depois do meio dia quase quase que desaparecia; o desporto não era prioritário no arranque, mas a coincidência da saída de Fernando Correia da TSF fez mudar em cima da hora; não havia uma coerência na emissão.

  2. vitor soares said:

    Não concordo, nem deixo de concordar com o que a Paula diz porque toda a argumentação me parece uma grande confusão e passa ao lado do que é realmente relevante. Apenas alguns exemplos: “Embora preocupante, também não é a rescisão com 36 colaboradores”; “não tanto pela maior ou menor capacidade da direcção de programas”, então qual é o papel da direcção? ; “a questão financeira não foi o principal problema, mas sim as audiências”, como se uma coisa não estivesse relacionada com a outra. Saúdo a posição do jpmenezes que, finalmente, reconhece que o projecto nasceu torto, depois de o ver defender que se devia dar tempo ao tempo argumentando, sucessivamente, que seis meses, um ano, dois anos, podiam não chegar para o formato se impôr. Recordo que Luís Osório chegou ao RCP, para montar o projecto, a 1 de Novembro de 2005, vai agora fazer cinco anos!

  3. Paula Cordeiro said:

    Caro Vitor,
    Trocando por miúdos…
    por melhor que fosse a direcção, por melhor que fosse o projecto, nunca teria sucesso porque as audiências (ou seja, os ouvintes, quem ouve rádio) não estão preparados para um formato deste género. Preferem o básico. O simples. O que não obriga a pensar. Um pouco como o post que escrevi, que obriga a ler nas entrelinhas…

  4. Concordo com o texto da Paula. Eu fui um dos que escrevi – e várias vezes – que o projecto estava condenado e expliquei porquê. Não era muito difícil perceber a razões do fracasso pois, tal como a Paula escreve, o Rádio Clube posicionou-se a meio do caminho das concorrentes, onde não existem ouvintes ou, pelo menos, os suficientes para justificar um projecto de rádio de palavra, que é mais dispendioso que uma emissora musical. E, como refere o João Paulo Meneses, o projecto sempre foi fraco, nasceu torto e nunca se endireitou. Neste capitulo, as direcções têm muita (toda?) culpa.

  5. Press man said:

    Não concordando, nem deixando de concordar com os posts anteriores, será sempre bom deixar, para memória futura, que O RCP tem esta sina de (tempos a tempos) ser assaltado, roubado, mal dirigido.
    Espero que a memória não nos falhe para relembrar mos que não é a primeira vez que o rádio Clube é “descontinuado”.
    Há 5 anos chamava-se Nostalgia. Um projecto nascido torto (morto?) que muito prometia e pouco conseguiu. Curiosamente o projecto é agora (parcialmente retomado) com o pomposo nome de M80.
    Mais um para morrer em 2, 3 anos.
    Luís Osório, Artur Cassiano, Jordi Jorda ou Luís Cabral, são apenas alguns dos nomes que deverão ficar associados a mais uma morte do velhinho RCP.
    Aliás do último só se espera que se demita como administrador porque não foi capaz de tornar o projecto rentável. Uma falha a juntar ao encerramento da Romântica FM ou da agonizante e patética Best Rock FM . A Media Capital tem administradores assim? Para encerrar (descontinuar) qualquer Cabral da vida o faria!
    Para terminar e para contrariar completamente todas as teorias anteriores. Enquanto as audiências estiverem entregues à Marktest, jamais o Grupo Renascença será abalado (por mau que seja o produto).
    Vai uma aposta?

  6. vitor soares said:

    Não, cara Paula,
    O problema não é o facto de os ouvintes não estarem preparados (se não sairmos dessa visão paternalista nunca afinamos até ao nível adequado a qualidade dos produtos). O Inferno não são os outros, são as nossas próprias insuficiências! O busílis da questão esteve no projecto do RCP que foi mal concebido e realizado, salvo raras excepções, por responsáveis deficientemente preparados. E que têm nome, como eu próprio e o Press man não deixámos de apontar. E quanto à obrigatoriedade de ler o seu texto nas entrelinhas, dispenso. Já me chegaram os anos da censura…

  7. Paula Cordeiro said:

    A melhor coisa deste post é saber que, afinal, há quem leia o NetFM (passam-se semanas sem um comentário…)!!
    A todos, especialmente ao Vítor: tenho por princípio não falar mal daquilo que não conheço por dentro. Não conheço aqueles que passaram pela direcção do RCP, não conheci o RCP enquanto estrutura organizacional, nunca li sobre as definições estratégicas do mesmo, não conheci as orientações formais que lhe estiveram associadas.
    Assim, não sei se o problema era incompetência ou se puxaram o tapete a cada um dos que por lá passou. Ou se não existiam condições (técnicas e humanas) mínimas para desenvolver um bom trabalho. Ou?…
    Como tal, tento sempre fazer uma análise da rádio a partir da perspectiva do ouvinte. Ou, alternativamente, perante algo que me parece “menos bom”, dar o benefício da dúvida, levantando as questões mais pertinentes a partir do que é possível “ver”.
    Gosto de fazer análises objectivas e imparciais. Não quero que este seja um fórum do típico “deita abaixo”. Agora que há muitos indícios de que a coisa não foi bem gerida, há. Que o posicionamento era arriscado. Era. Que as audiências da Marktest têm muito que se lhe diga. Também. Que no grupo MCR há algumas estratégias muito mal explicadas, há (como o Press man enuncia).
    No caso do Vítor, sendo tão conhecedor do caso, nem precisa das entrelinhas. Para quem conhece os meandros da rádio em Portugal, a escrita que faço é muito clara…
    E, quanto a visões paternalistas da audiência, se o formato não tem público, rien à faire… Somos muitos a querer mais dos media, mas muitos mais a querer menos!

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