Quando o “tu” impera…

A rádio muda.

Que a rádio está em mudança, todos já sabemos. Afinal, o ritmo actual é de mudança a todos os níveis, talvez mais rapidamente nos media, pelas implicações que a mudança social comporta para os conteúdos e formatos de cada meio.

No grupo r/com, a mudança reflecte os desejos e expectativas do ouvinte, respeitando as suas decisões. No início era a música. Depois, os conteúdos, as vozes e, finalmente, a forma da relação que a rádio estabelece com cada um deles.

A RFm comunicou hoje a sua decisão de tratar os ouvintes por “tu”. O chamado “tu-cá-tu-lá” que, ao que indicou o estudo de mercado que o comunicado refere, “permitiu concluir que os ouvintes RFM esperam que ela se relacione com eles desta forma”. Ideia reforçada quando se afirma que “foram os ouvintes que nos indicaram o caminho para esta evolução do relacionamento com a RFM”. Na justificação (embora tal decisão não tenha necessariamente de ser justificada), apresentam-se dois conceitos diferentes: proximidade e informal, sendo que, no seu significado, proximidade pode também significar aproximação social ou afectiva. Contudo, quando aplicada à rádio, não está necessariamente relacionada com a informalidade ou afectividade. Concentremo-nos, portanto, na informalidade e aproximação ao ouvinte. O que não é o mesmo que proximidade.

A proximidade (quando pensada no contexto da rádio), relaciona-se com a agenda e selecção de temas a tratar pela estação, reflectindo as principais questões da localização em que a mesma se insere e dos seus ouvintes. O que, para uma estação que se escuta em todo o país é particularmente difícil de gerir. No caso da RFM é bem trabalhada especialmente ao nível do lazer e evasão dos seus ouvintes, pela forma como gere a sua agenda social, possibilitando a sua integração num vasto leque de eventos aos quais, de outra forma, muitos desses ouvintes provavelmente não teriam acesso. No entanto, como emissora nacional, a proximidade pode ser questionada pela forma como concentra as suas atenções em eventos realizados em Lisboa. Por outro lado, é inegável uma tentativa de descentralização, pelo apoio a digressões de artistas/espectáculos nacionais, com passatempos que permitem escolher a localidade para assistir aos evento em questão, ou digressões da própria estação, onde apresenta(va?) os seus programas ao vivo. Adiante.

De regresso ao “tu” na RFM, é uma mudança. Grande. Se escolhida pelos seus ouvintes, provavelmente segura. Contudo, não nos esqueçamos de que a audiência tende a ser particularmente ardilosa. Não é que seja mal intencionada, contudo, tende a responder de acordo com as expectativas que pensa existirem para uma determinada pergunta, da mesma forma que tende a ir ao encontro do “politicamente correcto”. Ainda de pensar é a forma como tende a seguir aquela que pensa ser a tendência maioritária, se pensarmos na teoria da espiral do silêncio de Noelle-Neuman. Donde, nem sempre aquilo que a audiência nos diz, corresponde àquilo que pensa. Pior, nem sempre corresponde à sua acção. Um exemplo? Se perguntarem anonimamente a um vasto grupo de pessoas se gostaria de ter na programação algum tipo mais erudito de programa, a maioria poderá responder que sim. Se olharmos para as audiências das estações com programas ou programação desta natureza, encontramos uma forte incongruência…

A decisão, não me parece nem boa, nem má. Irá certamente surpreender os ouvintes que não participaram no estudo de mercado. Foram décadas com uma postura mais formal. Não necessariamente distante do ouvinte. Muito pelo contrário. A rádio tem, aliás, essa sublime capacidade de nos fazer pensar que estão a falar apenas para nós, quase num diálogo em que, embora não possamos interagir directamente, fazê-mo-lo inconscientemente, sob a forma do nosso pensamento. Actualmente, usando as ferramentas que a tecnologia coloca ao nosso dispor. Contudo, nenhuma consegue ainda ultrapassar esta estranha relação que se estabelece entre quem faz e quem ouve rádio. Apenas para os que, de facto, estão a ouvir. Não se aplica aos que levam a rádio a tocar por companhia e que trauteiam um ou outro refrão, ignorando voluntariamente o que dizem os locutores. Talvez não seja esse o caso da maior parte dos que ouvem a RFM. Ou porque gostam genuinamente dos que estão ‘do outro lado’, ou porque o que estes lhes dizem é relevante ou ainda, porque aguardam mais novidades sobre este ou aquele passatempo.

Ainda não me trataram por tu. Estou à espera.

No site, para os saudosistas, ainda nos tratam por você…

1 comment
  1. Carlos L said:

    Acho esta mudança deveras estranha, por vários motivos:
    1) o grupo RR é conservador por natureza e avesso a grandes transformações. A própria RFM, que na sua genese era o canal progressista do grupo, na ultima decada não alterou uma linha ao seu posicionamento. Mesmo na musica selecionada, as novidades são infimas. A Playlist roda em loop continuo e com quase total ausência de novos ingredientes.
    2) o target da RFM é vastissimo e ultrapassa largamente os 40 anos. Por exemplos, os meus pais têm 60 anos. Quando eu era miudo, eles não ouviam outra rádio que não o então canal1 da RR. Hoje ouvem a RFM. Não os consigo imaginar a ouvirem uma rádio que os trate por “tu”…

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