Tendências ou realidade?

Neste blogue, fala-se muitas vezes do futuro da rádio. Algumas das quais, como se se tratasse do presente. Na realidade, a diferença do tempo reside na diferença entre aquilo que ainda é efectivamente a rádio, aquilo que os operadores desejam que seja, o que lhes é possível fazer (face às determinantes económicas, constrangimentos técnicos e humanos), a rádio que os profissionais concebem, o que a audiência está preparada para receber, bem como aquilo que a rádio já pode ser. Como já o afirmamos, mais do que simplesmente, rádio (na noção clássica do termo).

As tendências há muito que se vêm desenhando. Desse desenho que começou no início do século XXI, só agora alguns começaram a identificar os traços: a passagem do analógico para o digital, em todos os domínios da radiodifusão, que se traduz por mais do que uma mera transposição dos conteúdos para a web. Ter uma página online, recheá-la de informação sobre a rádio, permitir escutar a emissão FM e carregar uns quantos podcasts não corresponde exactamente a esta nova realidade, traduzindo-se na fase inicial de transição, que algumas (talvez mais do que se pense) estações estão ainda a viver.

O modelo de fluxo linear está a dar lugar a um modelo não linear, ascendente e descendente, controlado pelos utilizadores. Este é acompanhado pela mudança de radiodifusão para microdifusão, no sentido em que os conteúdos estão disponíveis e podem ser automaticamente repetidos em diferentes plataformas. Facto que não significa ter emissão em FM e online. Há outros canais, que a audiência já utiliza nos quais a rádio também deve estar. Ou seja, todos os suportes e plataformas que permitam a difusão de som deverão ser utilizados também pela rádio. Do ponto de vista técnico, os standarts de emissão estão em mudança, co-existindo com receptores de rádio que permitem diferentes sistemas.

Mais importante, será a audiência, cujo conceito merece também revisão: o ouvinte passivo existe e continuará a existir. Contudo, o ouvinte activo é aquele que tem capacidade (acima de tudo, interesse e vontade) em procurar e escolher os seus programas preferidos em diferentes plataformas e estações.

Neste contexto, o papel dos operadores de rádio está menos definido, no sentido em que, como a imprensa ou a TV, podem transformar-se em operadores de media, fornecedores de conteúdos (para o caso, conteúdos áudio). Da mesma forma, pode aumentar o número de operadores e diminuir o investimento publicitário (facto que, independentemente da “crise” já acontece) porque o divide entre um maior leque de opções. Acima de tudo, porque o transfere do FM para plataformas interactivas, pelo que a rádio deverá ter uma presença ubíqua, em todas as plataformas e sob formatos diferentes, mantendo-se gratuita (pelo menos para escutar).

Para se entender a rádio, no futuro, talvez possamos partir  do triângulo que diferencia rádio de áudio e experiência sonora, explorando os seus pontos comuns para estruturar uma lógica profissional em torno da convergência da mensagem, particularmente da sedução inerente à comunicação sonora. Perante a crescente oferta, paralela a um produto cada vez mais segmentado, definido em função de gostos particulares, a dependência da publicidade enquanto modelo de negócio deve ser analisada cuidadosamente. Sabe-se que a natureza da Internet é gratuita, de livre acesso, pelo que a mudança de mentalidade, para que sejam os utilizadores a pagar pela utilização de um serviço será um processo muito longo e, talvez, sem sucesso, perante o surgimento constante de novos serviços gratuitos que facilitam ao utilizador o acesso à música e conteúdos áudio de informação e entretenimento.

Em conclusão, definições estanques não há e, daqui para a frente, não poderão existir, sob pena de rapidamente estarem desactualizadas. O segredo será, como em qualquer negócio, antecipar necessidades, surpreendendo o ouvinte. No entanto, na medida certa, porque apesar de tudo, também o ouvinte (grandes audiências) não está, ainda, preparado para a mudança. Ou seja, se a rádio inova verdadeiramente, não tem ouvintes/utilizadores. Se a rádio mantém o status quo, é acusada de não inovar e estar ultrapassada: mantém a sua audiência fiel, perde todos os que procuram algo novo, bem como todos os que já se transferiram para o online, usando o FM apenas quando não existe outra alternativa. Se avança mais depressa que o seu próprio tempo, hipersegmenta, não conseguindo sustentar o seu modelo de negócio. Difícil? Sim, bastante. Por isso a rádio é hoje um desafio tão interessante…

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