O que muda(ou) na rádio?

Atravessamos um momento de mudança. Longo. Porque é constante e começou há mais tempo do que aquele que levámos a perceber que a mudança estava em curso.

Na rádio, mudaram as plataformas e o consumo. Este, pela fragmentação e mudança de hábitos, transformou o ouvinte num consumidor. Numa 2ª fase, num “prosumer”, como Tofler definiu, sobre o papel do consumidor na sociedade de informação.

A convergência de plataformas, media, ferramentas, sites sociais, assim como da rádio no contexto da web 2.0 traduz-se numa relação da rádio com plataformas móveis, redes sociais, ferramentas como o podcast, bem como com novos conceitos como a webradio ou serviços de música online (alguns dos quais se denominam “rádio”).

A adaptação do FM passa muito pela inovação do conceito de webradio que, mais do que música na rede, se deverá assumir como uma proposta inovadora que agregue as funcionalidades web, associando-as aos conteúdos áudio e à linguagem radiofónica.

O processo tem sido lento e segue o caminho seguro que usa o podcast para oferta dos programas previamente transmitidos em FM, ou reúne diferentes canais sob uma mesma marca, sem contudo, a participação, personalização, partilha e produção serem integradas. O que quer dizer que não está a ser aproveitada a mudança que também ocorre na indústria musical para criar novas relações com a música ou o alargamento da esfera pública.

A (re) definição da rádio é tanto social, como ideológica ou técnica, no sentido em que as ferramentas que podem integrar a rádio a transformam num meio mais rico e multidimensional: blogues, rss, canais áudio semi autónomos, ferramentas de partilha, personalização ou produção podem consolidar este processo de mudança.

Diz-se que os mais jovens não ouvem rádio. O que é equivalente a dizer que a rádio é destinada às gerações acima dos trinta. O que não poderia estar mais errado. A escuta de rádio, assim como o consumo dos media no geral, é altamente relacionável com a experiência tecnológica dos indivíduos e a intensidade da sua utilização: se há jovens que ainda não têm perfil em redes sociais (sim, há) também há menos jovens que há muito deixaram de escutar rádio porque encontraram alternativas na rede. E estas não são necessariamente serviços de música online, mas todas as ferramentas e formas que permitem que cada indivíduo construa a sua biblioteca digital de música, que é hoje infindável e que se pode construir usando diferentes formatos, suportes ou plataformas (do iTunes ao Youtube, os exemplos são bastantes). Na verdade, a saída para a rádio musical passa pela adopção desta perspectiva tanto agregadora como convergente, porque as pessoas, especialmente os que gostavam de ouvir rádio que são utilizadores experientes/intensivos da Internet e tecnologias associadas, continuam a ouvir muita música, pelo que a rádio tem de se ligar a estas pessoas, usando as ferramentas que estas utilizam.

Por outro lado, a tecnologia não é só aliada da rádio. A rádio ganhou em estética, mas perdeu em espontaneidade. A gravação torna a rádio perfeita, mas elimina a solidariedade que se criava, bem como o sentido de comunidade entre ouvintes em relação ao locutor, que deixam de ter algo especial em comum – a gargalhada, o erro, a capacidade de improviso – que acontece naquele momento e que é irrepetível. A experiência de escuta de rádio é assim diferente, menos instantânea, menos espontânea, embora esteticamente irrepreensível. Neste contexto, também a inovação pode relacionar os ouvintes, ligando-os entre si correspondendo à forma como as pessoas consomem informação e entretenimento na web (quando e como desejam), ou se ligam entre si (redes sociais).

O principal continuam a ser as pessoas. Isso, não há tecnologia que possa substituir. Num cenário em que lidamos com excesso de conteúdos (e que nem todo é importante), a rádio tem de chamar a atenção, relacionar-se e ligar-se às pessoas da mesma forma que estas se ligam entre si, partilhando com elas aquilo que tem significado. O segredo estará na criação de um conceito que seja relavante para as diferentes redes nas quais as pessoas participam, bem como para os seus contactos. Ou seja, um conceito que, sendo especializado consiga atingir uma massa de conexões em rede.

2 comments
  1. jpmeneses said:

    Viva Paula.
    Permite-me derivar um pouco do teu texto: o que te parece que pode acontecer ao próprio conceito de rádio, em face das mudanças que sistematizas?
    Obrigado

  2. Paula Cordeiro said:

    Viva!
    Podemos continuar a chamar-lhe “rádio”, mas este conceito corresponderá a uma “rádio 2.0”. O conceito irá estar em discussão durante muito tempo. A discussão já começou e não parece que haja, para já, consenso, especialmente entre profissionaise académicos. Melhor dizendo, entre os que, sejam profissionais ou académicos, entendem este processo de mudança e reconhecem a necessidade de adaptar a “palavra” ao “objecto” e os que procuram, a todo o custo, continuar a pensar a rádio como esta “era”.
    Eu proponho R@dio, usando a @ como elemento de ligação ao universo online que é, sem dúvida, adequado à rádio, no sentido em que a Internet é decididamente, entre os meios que se seguiram à rádio, aquele com o qual a rádio pode interagir melhor, criando um produto que vai ao encontro do paradigma da comunicação contemporânea sem anular a identidade que lhe deu origem: o som.

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