Sobre ECT e a rádio

No domingo, Rogério Santos, escreveu, no Indústrias Culturais que “Não compreendi ECT” para criticar a abordagem de Eduardo Cintra Torres sobre a rádio, na sua coluna no jornal Público. No mesmo dia, Jorge Guimarães Silva, da Rádio em Portugal, reproduziu e confirmou a ideia. Ontem, no Twitter, limitei-me a um breve comentário (o que é possível em 140 caracteres!) sobre a questão.

Não li o texto, mas a exploração que Rogério Santos fez é bastante clara, começando por explicar que o autor “escreveu sobre a irrelevância da rádio”, para falar sobre o desaparecimento de António Sérgio e abordar a programação da rádio em Portugal, justificando através desta, a sua lenta migração para o CD e o MP3.

O anacronismo que explora no texto, como descreveu Rogério Santos, recorrem ao percurso radiofónico de António Sérgio para descrever a própria evolução da rádio: dos programas de autor às rádios piratas, das que se legalizaram e mantêm com sucesso, a história da rádio é relacionada com a evolução de gosto e da tecnologia. Por outro  lado, explora Rogério Santos, da inovação presente no período das rádio piratas, como novos géneros e abordagens, passámos para o um contexto de programação, como muito bem caracteriza, “de fluxo contínuo”, com programas nos períodos de prime-time (correspondendo ao drive-time).

Rogério Santos escreve que discorda de Eduardo Cintra Torres uma vez que “António Sérgio não levou a sua qualidade para uma rádio local”. De facto, a rádio hoje é apenas local no seu ponto geográfico de origem, onde mantém emissões terrestres, porque, como na sua génese, é provavelmente o meio com maior potencial global. Se pensarmos na rádio musical (que é indubitavelmente o principal formato de programação em Portugal), as emissões online potenciam as audiências, permitindo que cada estação seja escutada para além da sua localização. A tradução dos conteúdos do site aumenta esse potencial, ajudando a contextualizar quem não fala português, porque a música, é uma linguagem assumidamente global, independentemente da sua língua de expressão.

Sobre a irrelevância da rádio, pouco há a dizer. Nada mesmo, de acordo com resultados de variados estudos: este continua a ser o meio no qual as pessoas mais confiam. Mantém-se como a principal companhia nos diferentes períodos horários (no carro de manhã e à tarde, no computador, durante a jornada de trabalho). Continua a ser uma fonte de informação e de acesso à música. Garante o afecto e a comunicação que nenhum leitor de MP3 consegue dar. O que mudou? A plataforma. Os jovens consomem menos rádio. Está certo, apenas se pensarmos na difusão terrestre, porque são quem mais consome rádio através da Internet e do telemóvel.

E sobre a “perda de ouvintes”, uma análise dos últimos 10 anos do Bareme Rádio prova que tal não é verdade. Sobre o investimento publicitário, a rádio mantém a sua vitalidade e dinamismo, especialmente porque está a saber reinventar os formatos da publicidade, integrando-a na programação (para além dos blocos de publicidade) e fazendo convergir o meio online com a difusão terrestre.  Irrelevante?…

De que fala Eduardo Cintra Torres quando anuncia a irrelevância da rádio? Não migrámos todos para outras plataformas com ofertas hiper-segmentadas e personalizáveis, como sejam o MP3 ou a rádio online?

Será esta a mesma ideia quando pensamos na irrelevância do jornal em papel? Ou da televisão no receptor tradicional? Estará apenas e só, Eduardo Cintra Torres a referir-se à mudança de plataforma que corresponde também, a uma mudança de paradigma nos media?

 

1 comment
  1. viriato said:

    Só quem nunca trabalhou profissionalmente na rádio (sentindo quotidianamente o desinteresse dos verdadeiros protagonistas, das fontes importantes e dos investidores que interessam) pode estar convicto da actual relevância do meio. Aliàs, basta falar com profissionais mais seniores ou com responsabilidades para se chegar à conclusão que a rádio tem um passado, pode vir a ter futuro, mas não tem presente. Tudo o resto é rádio-militantismo, mais ou menos bacoco.

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