A relação entre ouvintes e sites de rádio (conclusão)

No âmbito da disciplina de Seminário, do 3º ano do curso de Ciências da Comunicação do ISCSP, um dos trabalhos deste ano, sobre as diferenças entre o analógico e o digital ao nível da linguagem e construção noticiosa no RCP, incluiu um questionário para complementar os dados obtidos na análise efectuada e, desta forma, avaliar a forma como a Internet permite uma maior aproximação entre ouvintes e a rádio, bem como as formas dessa aproximação.

A partir dos resultados apresentados por Nádia Paulo, a quem agradeço desde já a cedência da base de dados para análise, o NetFM desenvolve uma possível interpretação de algumas respostas, extrapolando hipóteses ainda por desenvolver, usando este, como um estudo exploratório sobre a relação dos jovens com a rádio na Internet.

O questionário foi aplicado online, durante um período de duas semanas (11 – 24 de Maio de 2009), tendo obtido 100 respostas, numa amostra bola de neve, de jovens entre os 18 e os 24 anos.

Para o conjunto de inquiridos, apesar de alguma dispersão nas respostas, a escolha da estação mais vezes sintonizada recaiu sobre a Rádio Comercial, seguida da Cidade FM, Mega FM e Antena 3. Com menor preponderância surgiram a RFM, Orbital e M80. Fenómeno curioso, num contexto de audiências em que a RFM lidera as audiências, verificando-se, neste pequeno grupo, ser apenas a quarta opção em termos da estação que os inquiridos costumam ouvir.

Sobre a visita ao site da estação que habitualmente escutam, a maioria afirma já o ter feito (86%).  No que respeita à frequência das visitas, a maior parte (36%) afirma fazê-lo ocasionalmente, enquanto 26% refere que raramente o faz. Contudo, na resposta à pergunta relativa ao elemento imprescindível no site, ouvir a emissão foi a resposta mais consensual, reunindo 61% das respostas. Dos inquiridos, 33% procura mais informação sobre os programas da mesma forma que visita o site para participar em passatempos. A consulta de notícias motiva 31% dos inquiridos para consultar o site da estação de rádio que costuma ouvir, enquanto 22% aproveita para saber mais sobre a equipa (locutores). A oferta multimédia é igualmente motivadora, embora não seja o aspecto mais relevante: 14% gosta de ver vídeos no site da estação, enquanto 15% considera que a descarga de podcasts é um factor que motiva a visita ao site.

Internet e proximidade à estação não são factores que possam relacionar-se. Na realidade, 40% afirmou sentir-se mais próximo da estação que escuta habitualmente ao visitar o site da mesma, ao passo que 41% negou esta relação.

Esta pode pode ser explicada pelas formas de participação colocadas ao dispor dos ouvintes. Quando questionados sobre a forma de contribuição à qual mais vezes recorriam, verificou-se que a escuta da emissão foi a opção com mais respostas (57%), seguida da participação em votações (35%) e em passatempos (25%). Em paralelo, é curioso verificar que 28% afirma não contribuir para o site, da mesma forma que o envio de conteúdos (imagens, podcasts, vídeos), bem como os e-mails para a equipa têm valores residuais (3%).

Questionados especificamente sobre notícias, vídeos e podcasts, verificou-se que apenas as primeiras motivam uma visita ao site de uma estação de rádio, enquanto que a possibilidade de ver vídeos e consultar podcasts  não leva os inquiridos a fazerem essa visita (46% e 47%, respectivamente). A consulta de notícias, contrariamente, obteve 53% de respostas positivas, contra 30% de respostas negativas, corroborando os resultados anteriormente obtidos, no que respeita à motivação e aspectos imprescindíveis no site de uma rádio.

Sobre estações que não estão disponíveis em frequência modulada, 60% afirmou não ter o hábito de visitar sites de estações que não escuta em FM. Quando o fazem, apontam a possibilidade de escutar estações internacionais ou nacionais de outra região como a principal razão (63%), seguido da consulta de notícias (35%), à semelhança das razões para consultar o site da estação que habitualmente ouvem.

Os resultados, embora não sejam representativos do universo de ouvintes de rádio, revelam contudo, algumas tendências. Se a Internet se apresenta como plataforma de difusão, por outro lado, não há ainda uma migração digital da audiência, pelo facto da maioria dos ouvintes escutar a rádio essencialmente em plataformas analógicas. Note-se que o questionário foi aplicado a jovens entre os 18 e os 24 anos, aqueles que teoricamente fazem parte da geração digital (a geração Y) e são considerados tecnologicamente mais aptos, igualmente considerados como “cellular generation” pela forma como fazem do telemóvel um dispositivo multifuncional,  imprescindível no seu dia-a-dia. A geração dos 18-24 cresceu num contexto de mudança social, resultado de grandes desenvolvimentos que produziram aparelhos e dispositivos tecnologicamente avançados, que integraram, desde cedo, o quotidiano destes indivíduos. É para eles que grande parte da comunicação mediática e das indústrias culturais se dirige. E se, boa parte da sua vida é passada online, se a maior parte das suas tarefas são desenvolvidas através da Internet, se o computador e o telemóvel são os instrumentos do seu quotidiano, por outro lado, raramente pesquisam em livros, são historica e culturalmente mais ignorantes que as gerações anteriores, dominando, contudo, o conhecimento recente sobre a cultura popular |ICM survey – The Guardian|. Esta geração usa a tecnologia digital não só para comunicar como também para as suas relações pessoais, sendo, por isso, alvo preferencial nas estratégias de comercialização online. Contudo, pouco ainda se sabe sobre o seu comportamento e preferências. Se atentarmos aos resultados deste estudo exploratório, verificamos que, embora não exista uma demissão dos jovens em relação aos meios tradicionais, não há, contudo, uma apropriação da rádio em contexto digital.

A rádio continua a ser um dos meios mais populares entre esta geração, mas a Internet domina enquanto plataforma |Conferência Geração Y|. Nos Estados Unidos, por exemplo, um em cada cinco jovens que escutam rádio na Internet não procuram a estação  que habitualmente sintonizam (Bridge Ratings, 2006). Contudo, apesar de a maioria dos inquiridos ouvir ocasionalmente a estação que habitualmente acompanha em FM através da Internet, o potencial da rádio através da Internet não é amplamente explorado, pelo que se pode concluir que os jovens não a encaram como parte integrante do sistema de comunicação que combina o twitter, os blogs e as redes sociais |Estudo PMN|. Ou seja, a rádio continua a fazer parte do seu dia-a-dia (não sabemos, contudo, a duração e o momento de escuta), mas de forma paralela, uma vez que o facto de consultarem o seu site não revela maior proximidade (existirá, de facto, proximidade entre estes e a rádio?), da mesma forma que as ferramentas multimédia e interactivas são pouco usadas. Neste domínio, apesar da maior parte das estações disponibilizar este tipo de funcionalidades e instrumentos, verificou-se que o tipo de utilização, embora seja online, mantém-se ao nível da oferta analógica (emissão, passatempos), ampliada apenas pela consulta de notícias e participação em votações.

Se a escuta da emissão é o elemento que consideram mais importante no site de uma estação de rádio, o facto de visitarem ocasionalmente o site da estação que habitualmente ouvem e de não terem por hábito visitar estações que não escutam em FM traduz a forte relação que os inquiridos ainda têm com esta plataforma, recorrendo aos elementos multimédia como um adicional à rádio e não como um factor diferenciador. O computador pessoal assume-se cada vez mais como um sistema de armazenamento e navegação, permitindo aos utilizadores partilhar os seus conteúdos multimédia através da rede. Por outro lado, o sistema high-fi vai perdendo relevância, face ao volume cada vez maior de ficheiros áudio e vídeo (musicais, essencialmente), armazenados nos cumputadores e leitores de MP3. Neste sentido, estão em desenvolvimento plataformas semelhantes à playstation que transformam o high-fi num di-fi, um receptor digital ligado à rede, com grande capacidade de armazenamento e de distribuição de conteúdos multimédia (exemplo). Ou seja, voltando à rádio, ouvir a emissão online pode não traduzir numa mudança de hábitos de escuta, apenas num novo comportamento de consumo, que abandona o rádio a favor do computador, cada vez mais o suporte multimédia e multimeios no lar.

Quer isto dizer que as pessoas não estão ainda a migrar para a Internet à procura de mais estações e de um conceito de rádio diferente. Escutam-na através da Internet porque utilizam o computador para trabalho e lazer, reunindo música, filmes e fotografia. Enquanto trabalham, a rádio faz-lhes companhia, como sempre fez. Simplesmente, não é escutada nos receptores tradicionais. Notícias e escuta online, são os aspectos mais relevantes para este grupo de ouvintes. O que quer dizer que pouco ou nada muda na rádio, se os operadores considerarem as expectativas dos ouvintes (e pensando que esta será a posição de uma grande maioria). Companhia e informação, desta feita, disponível numa plataforma que permite ao ouvinte maior comodidade na escuta: basta-lhe aceder ao site da estação para escutar a emissão, reunindo no mesmo aparelho todas as tarefas que realiza. Podcasts e vídeos não chamam ouvintes aos sites da rádio. Da mesma forma, não contribuem para a emissões.

Donde, talvez seja ao nível da exploração da web que os operadores de rádio estejam a falhar. A sua estratégia aponta claramente para uma complementaridade entre FM e Internet, com tendência para explorar um novo conceito de rádio, na web, que potencia os elementos multimédia, assumindo um novo discurso para a rádio. Contudo, se os ouvintes não exigem ainda, uma reconceptualização, pela inovação, da rádio, a oferta das estações mantém o status quo e não avança. Introduz novos elementos, mas não muda. Acompanha os ouvintes. Ou pelo menos uma boa percentagem dos que ainda ouvem rádio.

Como pode, um meio que não foi originalmente concebido e desenhado para uma geração analógica, acompanhar os jovens, sem, contudo, se afastar das gerações precedentes? Enquanto a emissão analógica não acabar, a solução é muito simples, mantendo as emissões FM para a generalidade do público, adaptando a página na Internet às necessidades da geração Y e dos que, não pertencendo a esta geração, adoptam comportamentos típicos desta geração. A geração Y, se a concebermos na perspectiva de Marc Prensky de “digital natives”, corresponde aos “native speakers” da linguagem digital dos computadores, jogos de vídeo e Internet (Prensky, 2001). A diferença entre estes tem correspondência, ao nível da relação com os media e a Internet, com o estudo das gerações. O mais importante será a compreensão de quem utiliza a rádio e como o faz, especialmente na Internet. Esta é mais do que uma questão geracional, uma vez que à geração Y se juntam todos os que não foram socializados em ambiente digital, mas o apropriaram, com sucesso, no seu quotidiano pessoal e profissional. Efectivamente, a tecnologia não “pertence” a nenhuma geração, sendo antes, a ligação entre um grupo vasto de indivíduos, de diferentes gerações, que têm em comum o facto de a utilizarem. No que respeita à Internet, seguindo a lógica de Everett Rogers, 1995 (Rogers) o utilizador poderá dividir-se em dois grandes grupos, os inovadores e os seguidores, correspondendo o primeiro aos que adoptam serviços, funcionalidades ou aplicações antes de estas se tornarem populares, ao passo que os seguidores apenas aderem depois da sua massificação (blogs ou twitter, por exemplo).

Implicações para a rádio? Um inovador, espera mais da rádio do que aquilo que o meio tem hoje para oferecer. Pretende, por exemplo, uma espécie de iGoogle, com twitter e rede social, numa página que, para além deste tipo de aplicações  lhe permita embeber outros canais (musicais ou de rádio), aceder ao correio electrónico, congregando, numa página de entrada na Internet todas as funcionalidades e sites que habitualmente consulta e utiliza. Em segundo plano, a estação da sua preferência estaria a tocar. Contudo, de forma personalizada e não um streaming da emissão em FM. Ou seja, seria o utilizador a configurar o tipo de conteúdos, seleccionando-os a partir da grelha de opções que a estação disponibilizaria. Por outro lado, um seguidor não sente este tipo de necessidade até que esta configuração radiofónica se transforme na “nova” rádio. Contudo, a coexistência de dois modelos não é viável do ponto de vista económico, pelo que o sector tende a satisfazer mais os seguidores do que os inovadores que encontram, em versões beta de aplicações e sites de música e rádio, satisfação para as suas necessidades a este nível.

Os resultados deste estudo indicam claramente que a Internet substitui o FM apenas enquanto plataforma de distribuição, uma vez que a escuta ocasional pode significar que habitualmente a escuta de rádio se faz em FM. Da mesma forma, a página só é relevante para aceder às emissões, consultar notícias ou participar em passatempos (muitos dos quais tem obrigatoriamente esta forma de participação). Talvez por esta razão a proximidade não exista entre o ouvinte e o site da rádio, da mesma forma que o multimédia e a interactividade são são aspectos valorizados pelos inquiridos.

Neste contexto, a rádio tem de ser analisada acima de tudo, sob o ponto de vista do ouvinte. Face às determinações sociais de uso da tecnologia, é difícil desenhar um modelo de rádio na Internet que reúna diferentes gerações e, acima de tudo, diferentes utilizadores da tecnologia. A fragmentação das audiências é ainda maior quando passamos para um ambiente online, pela sua natureza altamente personalizável. Seguir as tendências seria transformar a rádio num meio social, que ampliaria o conceito de comunidade que sempre lhe esteve associado, aproximando-o desta forma, da geração 18-24 que ocasionalmente acompanha as emissões pela Internet. E no receptor tradicional? Acompanha diariamente?…

Nota: Os resultados deste estudo exploratório motivam novas questões sobre a relação entre os jovens e a rádio na Internet. Trata-se de um “post in progress”, que motivou o desenvolvimento de um novo questionário, com resultados a apresentar ainda este ano. Caso tenha perguntas que gostasse de aplicar a esta faixa etária sobre a rádio e a Internet, deixe o seu comentário no NetFM ou em TwittingNetFM


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