12 meses, 12 estações

Para finalizar a ronda de 12 estações escolhidas para os 12 meses de 2008, uma análise do que é, afinal, a rádio.

Uma tentativa de catalogar e compreender o conceito, traçando algumas linhas para o seu futuro.

DEZEMBRO

To be or not to be… R@dio?

Just call it radio“, Pandora says. É assim que começa o post de Mark Ramsey sobre a questão da designação a dar a um projecto como o Pandora e outros, semelhantes, na Internet.

Em termos estratégicos, chamar “rádio” a projectos online de transmissão de música, com selecção construída pelo utilizador e/ou selecção programada pelo site, com diferentes canais temáticos é interessante. Para o utilizador, por lhe ser familiar, para os anunciantes, não só pela familiariedade, mas acima de tudo, por representar a nova versão daquilo que sempre conhecemos como rádio. Para a concorrência, pode ser tanto mais, como muito menos do que rádio, especialmente se pensarmos no (ainda) actual conceito de rádio como a temos conhecido.

Assumindamente, o projecto Pandora (que consegue analisar e catalogar a música de acordo com as preferências), é um serviço online de canais de música personalizados que adquirem o nome de “estações” (curiosamente, as aspas são da apresentação do próprio projecto). Esta aproximação à lógica da rádio não chega para o transformar numa rádio. É definitivamente um dos muitos projectos que contribui para redefinir o conceito, contudo, não será (apenas) este o caminho da rádio enquanto meio. 

Mais do que música, a rádio é comporta por pessoas, escreveu também Mark Ramsey por outras palavras. E, embora a presença humana exista em projectos como o Pandora, esta é residual. Podemos argumentar que a marca é inegável pela forma como cada “estação” pode dizer muito sobre quem a criou, associada a um perfil. Contudo, estes estão invariavelmente ligados a uma identidade que se pode construir e um avatar que nos pode identificar. As pessoas continuam a estar lá atrás, como na rádio, mas não transportam a sua presença para aquilo que se ouve, simplesmente porque, nesse momento, não estão lá. Pode parecer antiquado associar a voz humana à definição actual do conceito de rádio, contudo, “se matarmos a palavra, estamos a matar o que nos levou à rádio”, disse-me Fernando Alves em 2002, afirmação corroborada por cerca de outros 30 profissionais de rádio, entrevistados na mesma altura. 

E  o que muda, vai mudar, ou já mudou na rádio? O fluxo e a diversidade da oferta. Não a sua génese. Não o som. Ou seja, tenhamos rádio em directo ou diferido, personalizável ou não, num modelo unilateral ou bilateral, com ou sem conteúdos multimédia, numa plataforma exclusivamente sonora ou também visual, em dispositivos móveis ou não, na verdade, o meio continua a ser essencialmente sonoro. Mesmo que seja musical, a sua génese mantém-se: difusão sonora a longa distância.

Contudo, o que é hoje a rádio?

Correndo o risco de poder esquecer-me de algo (e assumo este como um post-in-progress), a rádio hoje é acima de tudo um meio multiplataforma. Mais do que qualquer outro meio de comunicação, a rádio pode escutar-se através de diferentes plataformas sem nunca deixar de ser rádio. Para além do FM, em Portugal, várias estações estão disponíveis por cabo, quase todas têm página e escutam-se através da Internet e, através desta plataforma, as rádios do mundo e as rádios criadas exclusivamente para a Internet estão também disponíveis. Receptores e plataforma de difusão à parte, o conceito de rádio está em transformação pela inegável influência da Internet no enriquecimento dos seus conteúdos na web que juntam, ao som, vídeo, texto, gráficos e animações impossíveis de associar anteriormente. O consumo também se transfere para a rede, especialmente durante o período laboral e a rádio, enquanto meio, neste momento, sofre com a indefinição do seu próprio futuro, dependente da plataforma que se afirme como a que poderá substituir o contexto analógico de transmissão das suas emissões. Será a Internet? Nesse caso, fenómenos como o Pandora poderão assumir-se como uma vertente da rádio musical do futuro….

Estamos numa fase de transição e apanágios como o de que “a rádio morreu” servem tanto à rádio como servem à música, quando se afirma que “o rock morreu” e está, permanentemente, a reinventar-se. Esta fase comporta alterações ao meio de comunicação e plataforma de difusão, com a Internet a assumir cada vez maior preponderância. A rádio, ou R@DIO, é multimédia, multiplataforma e convergente. Diferencia-se da “Era FM” por ser sonora e também visual, (mais) interactiva, (mais) participativa, partilhável, assíncrona, repetível, reproduzível, pesquisável, personalizável, descontínual, hipertextual, não linear, convergente, on demand, apesar de manter o efeito de acumulação e continuar a ser comunitária, adaptando (ainda não na perfeição) essa lógica ao contexto digital. Na realidade, isto é diferente do modelo sonoro e linear de comunicação de massas, com programação definida, ou seja, som para um receptor, com carácter único e irrepetível. 

Os conteúdos mantêm-se, especialmente porque há, para já, apenas duas soluções: streaming das emissões FM ou criação de estações musicais para a web. Destas, uma pequena percentagem inclui animação, donde se exclui, exclusivamente para a web, a rádio de palavra e a rádio-notícias (pelo menos, do que consegui, até agora, encontrar). No capítulo musical, mais do que formatos, os canais especializam-se procurando chegar ao “novo” ouvinte , que corresponde tanto ao digital immigrant como ao digital native. Neste campo,  será o “hommo digital” (composto por membros de todas as gerações, dos baby boomers à geração Y) aqueles para quem a r@dio irá trabalhar, que prezam a novidade, a posse e mudam rapidamente, estando a navegar quase sempre na crista da onda, descobrindo novos sites, aplicações e funcionalidades online. Este comportamento da audiência é activo, embora também se caracterize por uma certa passividade, pela forma como admite que algoritmos informáticos decidam a ordem e selecção musical do que vai ouvir durante um determinado período de tempo (exemplos: Pandora, Last FM…).

Assim, este processo de transição é também um processo de redefinição. O contexto agrega ao som outros elementos e poderá permitir ao conceito de rádio assumir uma nova forma. Se ao substantivo temos vindo a acrescentar prefixos e sufixos (online radio; e-radio, webradio, ciber radio, rádio na Internet), poderemos também alterar a palavra em si mesma incorporando-lhe um dos símbolos deste contexto digital: @, um dos caracteres fundamentais para a transmissão de mensagens de correio electrónico (ferramenta fundamental para a criação da rede mundial de computadores) e que se tornou um padrão nos teclados de computador (ícone e principal ferramenta da sociedade de informação).

No futuro, muito poderá vir a mudar na rádio, enquanto meio de comunicação, mantendo durante algum tempo a coabitação entre o sistema analógico e digital. Novos receptores irão certamente surgir, com maior ou menor afirmação no mercado: aparelhos que recebem FM e permitem navegar na Internet ou que liguem o FM às características da web, integrando a comunicação radiofónica. A participação do ouvinte/ utilizador poderá ser ampliada, transformando-o, em alguns casos, num co-autor: personaliza a página da emissora; contribui para a construção da programação sugerindo, opinando e implementando ideias; participa nos programas construídos pela emissora, interferindo ou reconstruíndo-os, remisturando-os ou adicionando informação; cria programas, enviando-os para a estação que os disponibiliza no site ou integra na sua programação; divulga a estação, através de sistemas de partilha (e-mail, favoritos, …).

No contexto da era digital, pensar o meio apenas em função da rádio em si mesma é inútil. Esta deve ser observada do ponto de vista do potencial utilizador e das potencialidades que a rede oferece, alterando não tanto o conteúdo (sonoro + multimédia), mas a forma da sua apresentação. A rádio pode já ter programação contínua e descontínua. Pode já ter página personalizáveis. 

Ao nível da informação noticiosa, o papel do jornalista pode ser repensado, entregando ao utilizador/ ouvinte um conjunto de opções. Perde-se parte da sua função de gatekeeper e o meio também miniza o poder da sua agenda. Contudo, esta mantém-se, na realidade, transformando-se essencialmente o seu papel de construção e reconstrução da realidade, entregando ao utilizador/ ouvinte não as notícias que produziu, mas as ligações para as fontes dessas mesmas notícias, reservando-se a produção noticiosa apenas para os factos da agenda própria da estação. 

No que respeita à música, esta poderia ser organizada não tanto em função de géneros e estilos, mas antes em função de gostos pessoais, atribuíndo ao locutor o papel de contextualizador. Como gatekeeper, perde também parte da sua função, mas o meio ganha por apresentar uma base infindável de música: própria e aquela que pode ser partilhada entre ouvintes, através de upload e download de listas pessoais. À semelhança do que fazem os sites de música, a rádio poderia atribuir maior poder ao ouvinte e deixar para o locutor o papel que nenhum iPod, Pandora ou Last FM consegue ter: a surpresa, a intimidade, a informação, o “estar lá” que nenhum programa informático consegue ainda superar.

Paralelamente, as plataformas estão disponíveis e a rádio pode começar a apresentar um produto resultado da convergência, possível de acompanhar no computador, no telemóvel, no PC e leitores digitais. Quem sabe, dentro de algum tempo, nos auto-rádios também. O grande desafio que se coloca, para quem gere e quem faz a rádio é aceitar esta espécie de gestão comum que transforma, por completo, o paradigma da rádio. Ouvinte e profissionais criam um novo modelo, organizando o contexto comunicativo da r@dio.

 


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