iPhone, não é iRadio

A notícia de ontem da Inside Radio explica que, afinal, o novo iPhone não terá rádio.

“Apple unveiled the new iPhone 3GS this afternoon in San Francisco. While developers say it is “faster and more powerful” it does not include a built-in FM receiver as some had speculated it might. But users can listen to streamed radio stations via a downloaded application”.

E?…

Isto significa que a Apple não encontra grande utilidade na presença da rádio nos seus aparelhos. Talvez porque o seu público-lavo não queira fazer do telemóvel um transístor e tenha um iPod para gerir a sua música, ouvi-la em qualquer parte. Ou talvez porque a rádio não está adaptada à tecnologia, oferecendo, nesta plataforma, o mesmo que está disponível para a rádio terrestre e para a web. O que está errado, uma vez que a utilização é diferente.

Já repararam no que fazem as pessoas (independentemente da idade) quando têm um telefone na mão? E já repararam no que acontece quando o têm na mão e estão sozinhas? Mexem. Interagem com o aparelho. Alteram as suas definições. Procuram novas mensagens. Escutam música. E certamente não ficam paradas a escutar passivamente uma estação de rádio. Consome demasiada bateria. E não oferece nada para fazer com os dedos, donde, o telemóvel não é útil porque não está a manter o indivíduo com a atenção ocupada, distante da solidão que representa a espera de qualquer coisa (transporte ou amigo) no meio da multidão.

Se pensarmos que ao fim de algum tempo de utilização o telemóvel por si só não tem nada de novo a oferecer, ou que a surpresa inicial do leitor áudio digital se vai perdendo, fazendo os indivíduos regressar à rádio, então, será necessário oferecer, nos telemóveis, a rádio embrulhada em conteúdos com os quais o indivíduo possa interagir. Pesquisar. Seleccionar. Copiar. Enviar. Guardar. Como faz quando navega na web. ocupa os dedos e a mente quando está em espera, quando está desocupado. E a quem acontece isto com maior frequência? Aos digital natives, a geração que tem, também maior proximidade com a tecnologia e com dispositivos como o telemóvel, sendo também a que tem menor proximidade à rádio. Como a conhecemos…

Rádio no telemóvel poderá ser uma recuperação e desenvolvimento do projecto Visual Radio da Nokia [Ler] ou, como já antes foi abordado no NetFM [Ler], uma preocupação adicional, com o desenvolvimento de conteúdos específicos para cada plataforma de difusão, oferecidos paralelamente à emissão terrestre, um dos vários elementos no menu de opções da rádio em cada uma destas plataformas (web, telemóveis)…

13 comments
  1. Paula, talvez haja outra forma de olhar a coisa. Como a Apple fazer dinheiro sendo uma portagem da autoestrada dos conteúdos e a presença de um receptor FM ser um buraco nesse modelo de negócio…

  2. NetFM said:

    Ricardo, de um ponto de vista empresarial, não poderia estar mais de acordo. Empresas de telecomunicações, grupos de media e algumas de electrónica (ou diria antes, a Apple, enquanto tal?…) tentam ser, também, portas de entrada na indústria de conteúdos. A rádio tem também de ser analisada enquanto tal, no contexto dos grupos de media em que se integra e no contexto das indústrias culturais. Contudo, do ponto de vista do utilizador/ ouvinte, qual a utilidade da rádio, como está a ser oferecida, num aparelho como o iPod ou o iPhone? Muito pouca, essencialmente pela falta de interactividade e pouca possibilidade de interacção. Com ou sem iPhone, a rádio encontrará outros caminhos e plataformas para oferecer os seus conteúdos…

  3. então porque é que a rádio não desapareceu? porque é que é oferecida e usada nos telemóveis Nokia, por exemplo? Creio que a percepção dessa busca a interactividade é exagerada. Existe, sim, mas não é a única forma de funcionar. A estupidificação frente ao televisor, a experiência passiva será sempre muito maior que o esforço de participação activo. Mesmo a rádio que temos oferece algo mais que a playlist, nem que seja uma playlist escolhida por outros. A decisão da Apple parece-me ter mais a haver com uma abordagem de controlo de conteudos que outra coisa.

  4. Recordei ainda de outro factor a ter em atenção. A net não chega a todo o lado e o FM/AM tem uma cobertura maior que esta. Além que várias aplicações, para garantirem uma experiência de utilização agradável podem exigir larguras de banda que não são suportáveis ainda [em muitos locais]. Com tempo lá chegaremos, é certo, mais ainda falta um pouco (pode-se sempre argumentar que a criação dessa expectativa acelere o processo por parte da operadoras). Dever-se-à também distinguir entre um público urbano e “rural”?

  5. Paula Cordeiro said:

    Gosto destas discussões acaloradas!
    Sobre a cobertura, há de facto algo a ter em conta e que se prende com a capacidade de sintonização da maior parte dos telemóveis (fraca), bem como dos leitores audio digitais (LAD), seja lá qual for a marca (também ela fraca). As antenas são internas e nem sempre captam o sinal com qualidade suficiente para manter o ouvinte. O tal que prefere a estupidificação passiva, a recepção de conteúdos sem esforço. Face ao LAD, a rádio tem sempre mais valor, nem que seja pela selecção diferente ou exactamente pelo factor surpresa.
    E sobre a Apple ou qualquer outra corporação, a perspectiva de que a maioria massificada e estupidificada em frente ao televisor consegue ir além desta oferta corporativa é demagógica. Esse espaço, da independência, inovação e da diferença faz-se cada vez mais na rede, independentemente de localizações mais ou menos urbanas ou da largura de banda disponível.
    De facto, o cenário aqui traçado é difícil de concretizar no presente, acima de tudo no imediato, mas se nos detivermos apenas no aqui e no agora, não estaremos todos a ver exactamente a mesma coisa?…

  6. Talvez não me tenha explicado bem. Pessoalmente acho que todos gostamos de conteudos passivos. O nível de tempo que lhes dedicamos é que varia. Nem que seja porque não temos paciência, ou não podemos (estamos a fazer outra coisa e multiplexamos) ou o que seja. Afinal o “modo passivo” não gasta energia…

    A questão colocada foi: “Contudo, do ponto de vista do utilizador/ ouvinte, qual a utilidade da rádio, como está a ser oferecida, num aparelho como o iPod ou o iPhone? Muito pouca, essencialmente pela falta de interactividade e pouca possibilidade de interacção”

    Muita, para o utilizador, na minha opinião. Porque está lá. Liga-se e ouve-se. Vou a conduzir, a passear, etc. A maioria das pessoas sempre encarou a rádio como uma gigantesca jukebox. Outros como feeds de notícias. É o rss sonoro (e periodicamente repetitivo).

    O iPhone, ou qualquer máquina desse tipo, é um canal de acesso. Mais do que isso torna-se na agenda pessoal, no telefone, no acesso rápido ao email ou a sites. Porque não há rádiono iPhone? A questão aqui será mais quem é que decidiu omitir a rádio do iPhone e porquê. Creio que mais do que uma análise de mercado (“isto é o que as pessoas querem”) existe uma estratégia de manipulação (“isto é a forma como desejamos que as pessoas interajam”).

  7. Paula Cordeiro said:

    E não são todos os meios e plataformas, resultado “da forma como desejamos que as pessoas interajam”?…
    Além disso, a rádio não está a oferecer um produto que seja útil para a Apple. Na senda do que interpreto nas suas palavras, a abordagem da Apple ao mercado é calculista e procura o lucro.
    Centrei-me na questão da interactividade. Do que fazem os indivíduos com o telemóvel e o que não fazem, ou do que podem ou não podem fazer com a rádio nestes aparelhos. Contudo, questiono a utilidade da rádio para a Apple no iPhone também pelos conteúdos (essencialmente musicais) da rádio: a rádio ainda é o principal meio de divulgação musical? É ainda o principal veículo de promoção nas estratégias de marketing dos artistas e da música? É o principal veículo de promoção de vendas? Não. E não o sendo, como pode a Apple introduzi-lo no seu iPhone, desviando as atenções do indivíduo e afastando-o do circuito iPhone – iPod – iTunes que, como o Ricardo subtilmente refere, está bem montado?
    Além disso, se não existe rádio neste novo telemóvel, pode até ser porque o público não quer. O que não acredito, uma vez que, embora não esteja cientificamente provado, as pessoas tendem a escolher os leitores áudio digitais que têm rádio. Independentemente de utilizarem, querem ter essa opção. Mais um, a juntar aos vários receptores que têm em casa e ao que têm no carro.
    E, portanto, a questão que se levanta sobre a presença ou ausência de um chip para receber rádio FM é muito mais complexa do que possamos imaginar. A análise do ponto de vista do consumidor será sempre incompleta e não dispomos das ferramentas necessárias para conhecer a perspectiva empresarial e de mercado da Apple.
    Não nos esqueçamos de que estamos a falar de um aparelho que deveria servir essencialmente para… telefonar🙂

  8. ok Paula, estamos a chegar mais ou menos às mesmas conclusões com cambiantes diferentes.

    “Contudo, questiono a utilidade da rádio para a Apple no iPhone também pelos conteúdos (essencialmente musicais) da rádio: a rádio ainda é o principal meio de divulgação musical? É ainda o principal veículo de promoção nas estratégias de marketing dos artistas e da música? É o principal veículo de promoção de vendas? Não. E não o sendo, como pode a Apple introduzi-lo no seu iPhone, desviando as atenções do indivíduo e afastando-o do circuito iPhone – iPod – iTunes que, como o Ricardo subtilmente refere, está bem montado?”

    Aqui a Paula sugere (ou parece sugerir, com a primeira sequência de questões) que a Apple descarta a rádio porque esta já não é um dos principais meios de divulgação musical. Eu digo que a Apple descarta a rádio porque não a quer ter como meio de divulgação musical. Isto é, acima de tudo, a Apple deseja que a rádio enquanto veiculo de divulgação musical, desaparece-se ou se tornasse completamente marginal. Essa é a minha leitura.

    O iPhone, apesar do nome, nunca foi um simples telefone…🙂

    Já agora, é interessante abordar mais esta perspectiva, muitas vezes ignorada: que a forma como o software é desenhado limita ou manipula a interacção possível, assim como afunila as opções do utilizador. É quase uma formatação social, numa certa perspectiva…

  9. Paula Cordeiro said:

    Também concordo. E desses cambiantes é que faz a riqueza da conversa.
    A Apple não tem qualquer tipo de controlo sobre os conteúdos da rádio, simplesmente porque não tem nenhuma estação. O negócio da Apple é a electrónica e a informática. A sua plataforma é a Internet, pelo que investir (ou agregar ao iPhone) um modelo que (penso eu) consideram quase obsoleto, não faria muito sentido. Não negam a rádio, negam apenas a distribuição terrestre, uma vez que o iPhone pode ter uma aplicação para aceder às rádios do Yahoo e da Clear Channel. Ou seja, web, web, web…
    Além disso, a Apple (a este nível) trabalha essencialmente para os digital natives e alguns digital immigrants, que fazem destes gadgets elementos essenciais no seu quotidiano. E, para estes, a rádio terrestre perde sentido, porque escutam rádio através da Internet, ouvem música através da Internet, escolhem, descarregam, compram, compilam, tudo nesta plataforma. Assim, a rádio FM será apenas uma “gigantesca jukebox” ou um “feed de notícias” que sabem que existe mas que pouco ou nada utilizam. O desaparecimento ou marginalização da rádio enquanto veículo de divulgação musical seria, para a Apple, um reforço ou uma forma de angariação de novos utilizadores das suas plataformas de comunicação. Destas, o iPhone é a mais forte, congregando no aparelho (não um simples telefone…) que mais utilizamos no quotidiano todas as funcionalidades que necessitamos (como já referiu, agenda pessoal), as que possam ser úteis e as que nos possam ocupar em momentos “livres”. E neste sentido, tudo converge para a web.
    Sim, o desenho de software (e mesmo de hardware) limita/manipula as possibilidades dos utilizadores e parece claro que a Apple afunila as opções do utilizador, formatando-o socialmente num cenário tecnológico em que a marca satisfaz as suas necessidades de comunicação.
    A Apple é uma marca de culto, com seguidores fiéis. Enquanto marca, conseguiu criar em muitos consumidores uma certa devoção que os faz defender a Apple e evangelizar novos seguidores, razão pela qual cada vez mais cria, para além dos aparelhos, o software e as condições para expandir o universo “Apple”, satisfazendo os seus “membros” e não “clientes”. Com base numa comunicação inconformista, a Apple projectou-se como uma marca de culto no seio de todos os que, de uma forma ou de outra, se consideram “diferentes” e estão dispostos a contribuir para apoiar a marca. A criatividade é a identidade da marca e esta nem sequer se define pelos seus produtos, mas antes por uma maneira de pensar, pelo que nenhum dos “membros” desta comunidade encara a Apple como desenvolvendo uma formatação social. Pelo contrário, como ponto de fuga à formatação social dos media, informática e telecomunicações. A história remonta a 1984, quando Jobs conseguiu, com um discurso atacar a IBM e a sua liderança na indústria informática, demonizando mais tarde, a Microsoft.
    Do iPod ao iMac, passando pelo iTunes e o iPhone, fazem parte de um conjunto reforçado pela publicidade, os eventos, as lojas da marca ou o site na web para criar o sentido de comunidade e fomentar o sistema simbólico que norteia o grupo e lhe dá identidade, num sistema de representação que a própria sociedade tende a reafirmar, atribuindo à marca um estatuto diferente das restantes.

  10. “A Apple não tem qualquer tipo de controlo sobre os conteúdos da rádio, simplesmente porque não tem nenhuma estação.”

    mesmo que tivesse uma estação não controlaria o acesso a outras…

    outro comentário necessário é sobre a rádio ser apenas (ou percepcionar-se apenas como) uma jukebox ou feed de notícias. O meio tem mais potencialidade do que isso. Espero que a “morte” da rádio comercial traga um renascimento artistico, cultural e humano à rádio, como o CD fez com o Vinil.

  11. Paula Cordeiro said:

    Naturalmente… Para as duas observações!
    Se a Apple tivesse uma estação de rádio, tal não seria UMA, mas um grupo de estações e não precisaria de controlar o acesso às outras. Os utilizadores do iPhone escutariam apenas as da Apple…

    O meio tem enormes potencialidades e a sua distribuição em diferentes plataformas também poderá contribuir para um fenómeno semelhante ao do CD/Vinil. Mas não podemos esquecer que estamos perante um vastíssimo auditório que, parece-me, está mais voltado para a “estupidificação frente ao televisor”, sendo que o cliché se aplica essencialmente à ausência de ideias, de iniciativa e, acima de tudo, à vontade aprender, de procurar e enveredar pelo consumo de conteúdos que não são passivos: obrigam a pensar…

  12. “Mas não podemos esquecer que estamos perante um vastíssimo auditório que, parece-me, está mais voltado para a “estupidificação frente ao televisor”, sendo que o cliché se aplica essencialmente à ausência de ideias, de iniciativa e, acima de tudo, à vontade aprender, de procurar e enveredar pelo consumo de conteúdos que não são passivos: obrigam a pensar…”

    Paula, isso não me preocupa. O fenónemo vinil também não é para toda a gente. Não por exclusão mas por opção. O importante é que existe e há pessoas a fazerem coisas com vinil e um público. Acredito que se a banda FM se abrisse a iniciativas mais “grass roots”, como eles dizem em inglês, o espectro ficaria mais rico e haveria concerteza um público interessado. No entanto, para isso acontecer, a rádio (FM) também tem de perder importância enquanto fenómeno de massas. Irónico, não? No entanto basta traçar paralelos com as iniciativas de fudno com mais sucesso, aquelas que movimentam a componente social. Não falo de coisas fabricadas, que assim que perdem o sopro do metal sonante se afundam, mas as que nascem e evoluem de um esforço comum e interessado.

    As rádios piratas, por exemplo, vingaram porque partiram de um entusiasmo próprio, um auto-interesse. Manter uma rádio pirata era barato porque ultrapassada a questão do material, o capital humano era barato. Manter uma rádio comercial ou pública hoje é caro porque o capital humano é caro. Fecham-se os cheques, acaba-se a folia. E é assim que a rádio vai acabar penso. A rádio que ouvimos hoje, e que muitos carpem ao ver-se finar. Olhando no entanto ao que acontece lá fora (US, Europa, etc), e mesmo cá dentro, a fome de querer fazer rádio, a partir de uma plataforma amadora, continua viva e de saúde. Só não o sabe quem não lhe quer sentir o pulso.

    Enfim, acho que já descarrilei a conversa🙂

  13. Paula Cordeiro said:

    🙂 Sim… Mas para aquilo que muito bem sabemos: a paixão da rádio. E essa, não depende nem de cheques nem de reconhecimento do público, mas tende essencialmente, a traduzir-se num valente reconhecimento público.
    A Internet pode ser esse veículo, esse espaço para fazer rádio que “movimenta a componente social”. Assim que a rádio FM passar a ter a Net como principal plataforma de distribuição, o FM poderá retomar um novo fôlego ao ser lenta e gradualmente reapropriado por aqueles que querem fazer rádio. Porque têm alguma coisa a dizer. Porque não a entendem apenas como um veículo de comunicação de massas…
    Descarrilámos, mas no bom sentido!

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