Muita parra e pouca uva…

As notícias, bem como  as investigações sobre música e Internet apresentam dois dados adquiridos: os músicos não precisam dos media (especialmente a rádio) nem das editoras; a distribuição em breve passará a fazer-se na rede. Ora estas ideias, não estando erradas, são também redutoras, demonstrando uma tendência para ver o mundo a preto e branco. O que, no que aos media e à cultura diz respeito, não poderia estar mais errado. Não há ainda, certezas, apenas tendências de produção e consumo.

Na realidade, a rádio em muito contribuiu para esta perspectiva de que os músicos não precisam do meio para se promoverem, pela forma como tende a homogeneizar a promoção de géneros, estilos e artistas em função de critérios comerciais. Vence a música pop. Abandonam-se os rituais de escuta de música através da rádio, que está hoje disponível em diferentes meios e plataformas. Evolução dos tempos. 

Quando surgiu o iPod (ícone para todos os leitores de MP3), muito se escreveu sobre a forma como este novo gadget iria substituir a rádio. Na verdade, ainda não conseguiu e já se concluiu que dificilmente conseguirá. Falta-lhe a voz humana, a surpresa (apesar da repetição) , a contextualização, a companhia e as informações úteis que a rádio fornece.

Sobre a relação entre os artistas e as editoras, talvez a tendência venha a afirmar-se, para estas redefinirem o seu negócio e a relação com os músicos. Sobre a distribuição, tal como nos media, esta não se faz exclusivamente na rede, embora seja mais fácil conceber um modelo de negócio para a música baseado apenas na Internet do que para os media. Os canais de distribuição tradicionais vão perdendo peso para a Internet, contudo, tal não significa que os artistas e as empresas ganhem mais (ou apenas que ganhem) dinheiro. Entre vendas e descargas ilegais, estas continuam a dominar o cenário de consumo de música na rede.

Um novo estudo (PRS for Music), divulgado pela BBC News revela duas coisas: variedade de músicas na rede não corresponde a maior divulgação; quem ganha com a distribuição online são os artistas mais conhecidos |Ler Notícia|.

O que nos leva, uma vez mais, a pensar (ou repensar) o papel da Internet para o aumento da diversidade na comunicação e difusão cultural. Por um lado, a ausência de opções clarifica as ideias. Por outro,  demasiadas opções de escolha podem tornar mais complexo o processo de decisão. Implica tempo. Dedicação. Selecção. Aquilo que durante anos tem sido “packed and ready to go” pelos media. Pela rádio. As opções mediáticas são cada vez mais vastas e a pesquisa online pode revelar-se uma dor de cabeça para quem não sabe exactamente o que procura e onde quer encontrar, pelo que o facto de existirem muitas canções disponíveis para compra ou descarga ilegal não significa que a net esteja a contribuir para o aumento da diversidade, da exposição e consumo de novos artistas. Apenas uma pequena proporção de canções é comprada e descarregada nos sites de partilha de ficheiros, indica o estudo, avançando igualmente que a pesquisa resulta daquilo que os media promovem e da consulta no círculo de amigos. Neste contexto, a conclusão do estudo é a de que os sites de partilha de ficheiros não ajudam os artistas desconhecidos (talvez neste campo as redes sociais tenham um peso maior), uma vez que as músicas mais pirateadas são exactamente as que estão no topo das tabelas de vendas (os indivíduos podem escutar artistas desconhecidos, ocasionalmente e nestes sites, onde a música é gratuita).

Donde, voltamos à velha questão do seu consumo de música enquanto actividade social, servindo para a construção da identidade pessoal dos indivíduos, sentimento de pertença e tópico de conversa. Desta forma, talvez se possa então, aplicar a lógica da Long Tail, não com a distribuição da música na rádio, mas com o regresso à lógica da rádio enquanto meio de divulgação (o que não é exactamente o mesmo que promoção) e às personalidades da rádio. Aqueles indíviduos que têm tempo e se dedicam a conhecer o que está para lá do óbvio. Embora a ideia pareça redundante, será uma rádio musical menos dedicada ao ouvinte (no sentido de lhe agradar) e mais dedicada ao ouvinte (no sentido de criação de uma relação de reciprocidade da comunicação), com espaço para a divulgação e a oferta dos êxitos, segmentando e especializando os estilos, educando o ouvinte para aquilo que poderá vir a ser a música comercial de amanhã, em parceria com o potencial que a rede tem para oferecer, neste domínio.

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