12 meses, 12 estações

Analisados exemplos musicais e da rádio informativa que lidera em Portugal, o NetFM escutou a Antena 3 e dedicou-se, desta feita, a um projecto que, não sendo inovador, recupera uma tradição perdida entre nós: a palavra ao RCP.

Junho

Rádio Clube Português

Uma rádio de palavra que poderia abalar o panorama radiofónico português e que, aparentemente, não teve ainda tempo para se impor no mercado e nas audiências. Uma generalista que se assume como tal, recuperando um modelo já testado em décadas anteriores e de grande sucesso fora do nosso país.

 

De acordo com a Lei da Rádio, o serviço de programas generalista corresponde a um modelo de programação universal, com diferentes tipos de conteúdos radiofónicos.  Na ausência de uma definição consensual sobre o que é, ou não, a rádio generalista, a Lei também não é suficientemente elucidativa, muito embora forneça boas pistas sobre a questão. Assim, tal deverá corresponder a um tipo de programação que vá ao encontro de interesses muito variados para públicos igualmente diferentes, daí a sua universalidade. Por outro lado, supõe que essa programação incluirá diferentes tipos de conteúdos o que, no fundo, acontece em qualquer tipo de estação, generalista, especializada ou temática. Ou não serão a música, as notícias, as rubricas de humor e a informação de utilidade como o trânsito, diferentes tipos de conteúdos?

Vejamos novamente a definição, por partes. Uma programação universal, no contexto de mercado e das estratégias de marketing modernas é particularmente difícil de estruturar e, acima de tudo, gerir. A universalidade da programação, um dos requisitos do serviço público de radiodifusão é o elemento mais difícil de conquistar e analisar sob pena de não conseguir conquistar e, acima de tudo, fidelizar, nenhum tipo de público. Muito embora se consigam encontrar géneros radiofónicos e produzir conteúdos de rádio cujas temáticas sejam de carácter universal, num contexto em que o público está cada vez mais segmentado por idades e, em cada faixa etária por interesses, atitudes e gostos, é particularmente complexo encontrar temas comuns às diferentes faixas etárias e seus interesses.

No que respeita aos conteúdos, de que tipo de conteúdos fala a Lei? Informativos ou musicais? Informativos e musicais? Provavelmente. Hoje, dificilmente se faz uma rádio sem referências musicais. Temos ainda, no nosso panorama radiofónico excelentes referências e comunicadores que, ou estão afastados do meio, ou estão em cargos de direcção, deixando às novas gerações a condução das emissões e a criação de novas e renovadas referências. Uma questão que, por si, daria azo a muita discussão e que não tem lugar neste espaço dedicado ao RCP.

Assim, face à questão de rádio generalista, o RCP optou por se assumir como uma rádio de palavra. Neste sentido, não são raras as vezes que a antena se abre aos ouvintes para que estes participem e preencham a emissão, num processo de interacção que recupera o formato de talk show radiofónico. Este prolonga-se ao longo da emissão, juntando profissionais da rádio que se debruçam, de forma diferenciada sobre temáticas variadas com uma abordagem adequada aos diferentes momentos do dia. O desporto tem também um lugar reservado na programação, embora o futebol tenha, inequivocamente, um lugar destacado. Há ainda lugar a outros géneros e conteúdos, que vão da entrevista ao debate, em programas semanais.

As manhãs têm um programa que, para além das notícias, aprofunda temas e apresenta diariamente um leque variado de convidados. Ao final da tarde, a programação incide novamente sobre a informação noticiosa, embora com uma abordagem distinta, mais reflexiva e incisiva sore os temas quentes do dia e dos que poderão continuar na agenda dos media.

Há também espaços musicais que, com excepção da madrugada, são pautados por palavra, sendo que se inverte a lógica das rádios musicais: a palavra assume o lugar priveligiado e a música acompanha-a, completando o espaço entre o dito e o não dito.

A sua aposta é claramente o FM, embora a página na web apresente notícias e um arquivo muito interessante em podcast de diferentes espaços da emissão(1).

A programação completa-se com a emissão local, diariamente ao longo de sete horas, divididas em dois períodos horários (tarde e noite), assegurando os horários de maior audiência com uma emissão comum a todas as frequências do RCP. O objectivo é manter a traça da programação do RCP, com programas de informação, entretenimento e proximidade.

Comparativamente às estações musicais, é inegável o valor do RCP no panorama radiofónico nacional. Contudo, a pouca estabilidade interna da estação (1), associada à preponderância e ao hábito dos ouvintes, fidelizados em estações musicais, faz deste um projecto difícil de implementar de forma imediata no contexto concorrencial e das audiências.

Audiências para este projecto existirão certamente, especialmente quando este se fortalecer internamente e afirmar com segurança o seu tipo de conteúdo, personalidade e assinatura. Mesmo que não se possa pensar numa rádio com este formato como uma rádio de grandes audiências, se atentarmos à tendência de hiper-segmentação dos media e de convergência de conteúdos e plataformas. Contudo, como em muitos outros domínios, a contra-corrente acaba por se revelar, a médio prazo, como um factor de grande sucesso…

(1) Curiosamente, apesar das alterações recentes da equipa já se reflectirem na página, há ainda, em destaque, uma animação com referência ao anterior pivot do programa da manhã que, numa estação profissional como se assume o RCP, não deveria acontecer, provocando a confusão no ouvinte.

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