Comentário IX – 29 de Maio

A teoria do Agenda-Setting foi introduzida na década de 1970, pelos americanos Malcom McCombs e Donald Shaw e fundamenta-se na ideia de que são os meios de comunicação que definem quais os temas realmente importantes da actualidade, pelo facto de atribuírem um maior destaque a certos acontecimentos e esquecerem outros.

No fundo, o papel dos media não é influenciar as opiniões do público, mas sim determinar as questões da actualidade que devem ser reflectidas e discutidas na esfera pública. Ou seja, os meios de comunicação não pretendem dizer às pessoas como pensar, mas sim quais os assuntos a serem incluídos no seu conhecimento.

Este agendamento ocorre porque a imprensa é selectiva ao noticiar os factos ocorridos. A informação a que o grande público acede é em grande parte um produto do gatekeeping (controlo sobre a selecção do conteúdo exercido pelos media) e a importância que este dá à realidade vivida é cada vez mais dependente da dimensão mediática que lhe é atribuída. Assim, a realidade social torna-se num “cenário” pintado pelos meios de comunicação de massas.

Esta capacidade de agendamento estende-se também à esfera política; por sua vez, os políticos, tomando consciência do poder dos media, tentam influenciar não só a construção noticiosa como também a sua perspectiva. Esta é uma das mensagens que o cartoon “Victims of War” pretende transmitir.

A imagem retrata a forma entusiástica como é feito o “enterro” da integridade, distância e independência jornalística, características estas que “morreram em acção” durante a Guerra do Iraque. As figuras representadas no cartoon personificam as cadeias americanas de informação FOX, CNN e CBS.

Neste caso, o que os media transmitiam era a legitimidade que os americanos tinham para atacar, enquanto que as imagens do povo iraquiano eram construídas a partir de uma visão etnocêntrica, que associava toda uma população ao extremismo e ao fanatismo religioso. Foi, então, a agenda política que deu voz aos meios de comunicação, de forma a utilizar as imagens da guerra para fazer valer os seus propósitos de direccionar a opinião pública a aceitar a invasão do Iraque.

O cartoon ironiza, assim, a leveza com que os jornalistas encaram a perda de três grandes pilares da ética jornalística em função da visibilidade e do sensacionalismo.

Catarina Oliveira

Vanessa Domingos

Concordando com a análise das nossas colegas ao cartoon, vamos reforçar apenas alguns pontos.

O agenda setting destaca o poder que os meios de comunicação detêm para fixar a agenda pública desempenhando um papel importante na realidade. É necessário perceber como é que se insere um tema na agenda pública. Existem quatro características decisivas para tal: 1) natureza da cobertura; 2) proeminência hierárquica no seio da informação apresentada; 3) continuidade; 4) possibilidade de entendimento e significação.

O agenda setting poderá ser entendido genericamente através da frase “ Se ninguém viu, se ninguém ouviu, não aconteceu.”!

Críticas à hipótese do Agenda Setting

São apontadas várias críticas à hipótese do agenda setting. Segundo a perspectiva do teórico, Enric Saperas, há lacunas que persistem neste tipo de investigação, salientando-se as seguintes:

– inconsistências na relação causa – efeito entre a agenda dos media e o público;

– falta de clarificação nas variáveis psicológicas no estabelecimento de agenda;

– falta de definição do conceito de assunto, item ou tema;

– impossibilidade de se separar os temas em que cada pessoa pensa, daquilo sobre o qual a pessoa pensa acerca de determinado assunto;

– imprecisão terminológica e metodológica- falta de unifomização dos instrumentos de análise;

– desconhecimento da audiência- heterogénea;

Reportando-nos ao cartoon “Victims of War”, podemos afirmar que a temática da guerra do Iraque abordada é um dos paradigmas da hipótese do agenda setting, pois pelo modo como era noticiado o assunto, com tanta ênfase e importância, a realidade foi fabricada para que houvesse uma concordância por parte da opinião pública norte-americana, como consequência, o Iraque foi invadido. São aqui retratadas várias estações americanas – FOX, CNN, PRINT MEDIA e CBS- com um ar sarcástico a enterrar o jornalismo independente, íntegro e distanciado. Mas esta independência, esta integridade e este distanciamento fazem-se sentir relativamente a quem? Nos EUA, um país onde há uma suposta tradição de liberdade de expressão e uma relativa independência em relação aos vários tipos de poder, não deveria ser permitida qualquer tipo de manipulação exercida pelo poder político em relação aos media. Contudo, assiste-se a meios de comunicação subjugados ao poder político, o qual está subjugado ao poder económico (neste caso aos lobbies petrolíferos). Concluímos assim que existe um enredo de vários “filmes” com diversos actores ligados a diferentes facções políticas e económicas que se submetem mutuamente com vista a satisfazem interesses mútuos, onde o poder económico fala mais alto.

Os media desempenham um papel importante na realidade política ao fixarem notícias. Conhece-se um assunto e sabe-se qual a importância a atribuir, através da quantidade de informação. Deste modo, os media podem determinar quais as principais questões e assim, estabelecer a “agenda” da campanha. Verificando-se que não têm uma atitude inocente e sem intencionalidade, mas sim que estão forrados de intenções nas suas acções.

É de esperar dos meios de comunicação social uma verdade nua e crua, independentemente de poderes e interesses, mas como diria Oscar Wild “ A verdade jamais é simples e raramente pura.”.

Ana Barbosa & Hália Feio

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