Pensar a rádio…

Pensar a rádio em contexto digital, implica necessariamente adaptar o meio ao contexto, ao seu desenvolvimento permanente e aos usos e exigências do público.

Do ponto de vista comunicacional, a Internet está a atingir uma segunda fase da sua curta existência, não se prevendo ainda quando será a sua maturidade enquanto plataforma de comunicação. Neste sentido, surgem constantemente inovações na forma da sua utilização, que derivam da evolução da oferta de conteúdos, da forma da sua apresentação e do suporte que é utilizado, pelo que a adaptação tem também de fazer-se, por exemplo, em função do ecrã do telemóvel, em detrimento do computador.

Não restam dúvidas de que há muitas ideias a surgir, especialmente no que respeita à relação que se estabelece entre a pesquisa e navegação aleatória e a especificidade da informação personalizada, relevante e pertinente para cada indivíduo, que deverá estar disponível onde quer que o mesmo se encontre, pelo que, o telemóvel se assume cada vez mais como o suporte que no futuro será o principal, para navegação na web, permitindo ao indivíduo consultar o e-mail, resolver questões gerais do seu quotidiano, enquanto circula ou está afastado do seu computador.

Na realidade, as plataformas móveis de comunicação estão a tornar-se ubíquas e apresentam cada vez mais possibilidades de comunicação, com o desenvolvimento de novos aparelhos com maior capacidade (memória e procesamento de dados) que permitem a introdução de novas aplicações para uma melhor gestão da sua utilização, adaptando a web a estes aparelhos.

No quadro deste desenvolvimento, considerando que a maior parte dos telemóveis hoje tem rádio, captando as estações em FM, fará sentido pensarmos na escuta de rádio online em plataformas móveis?

Sim, desde que os operadores de rádio alterem a sua perspectiva relativa ao meio…

Desde que reconceptualizem a presença da rádio na web e, embora mantenham a identidade do meio, essencialmente sonoro, reconfigurem a rádio em torno dos parâmetros do digital, abordando o ouvinte mais como um utilizador. Enquanto utilizador, o indivíduo assume uma postura que é também a de ouvinte, mas que se centra numa lógica diferente, manipulando os conteúdos e a navegação na página de forma individual e personalizada. Por esta razão, venho defendendo que as páginas web da rádio se podem assumir como a página de entrada no utilizador na web, o local onde começa e termina sempre a sua navegação.

Uma espécie de iGoogle radiofónico, que permite ao utilizador personalizar os conteúdos que deseja visualizar, abrindo-lhe as portas da web. Mais do que referenciar uma dada estação como página inicial, importa transformar essa página numa paragem relevante que não se abandona ao longo do dia, deixando a marca da estação sempre presente na barra de navegação do web browser. Paralelamente, cada estação deverá cuidadosamente analisar o perfil, o tipo de navegação e os conteúdos que os seus ouvintes consultam enquanto assumem a sua postura de utilizadores, oferecendo-lhe esses mesmos conteúdos – ou a possibilidade de os referenciar na página da estação – juntamente com conteúdos próprios, produzidos pela estação em função da sua identidade que, neste contexto digital, não pode perder-se ou confundir-se com qualquer outra identidade, misturando a lógica FM com a lógica WEB. Em termos de marca, a identidade mantem-se, embora na web, esta possa ser ampliada pela oferta multimedia.

Esta identidade multimedia tem a ganhar se recorrer a conteúdos áudio em detrimento de outros conteúdos visuais, por forma a que, mesmo que se afaste, por via das hiperligações, da página inicial, o utilizador não abandone a sua condição de ouvinte e possa, ao contrário do que acontece com outros meios na web, manter a grande vantagem da rádio: a de efectuar outras actividades, enquanto escuta a emissão.

E, neste caso, não quer dizer que esteja a ouvir a emissão FM em streaming na web. Poderá, sim, estar a escutar conteúdos como podcast de programas, noticiários, rubricas, trânsito ou qualquer outro conteúdo visual ou escrito, disponível no website e disponibilizado paralelamente à emissão FM. Ou seja, sempre que clicar em qualquer conteúdo, a emissão FM será interrompida para ser retomada mal acabe a reprodução do ficheiro escolhido.

Caberá ao ouvinte transformar-se num utilizador e decidir que utilização quer fazer da sua estação de eleição. Note-se que, entre os que se mantêm como ouvintes, escutando apenas rádio em FM – por força de circunstâncias várias (exemplo dos taxistas ou de outras profissões sem acesso à web em permanência) -, e os que são assumidamente utilizadores, recorrendo às páginas web de cada estação para poderem continuar a escutar a “sua” estação de rádio ou para terem um ruído de fundo enquanto trabalham, vai uma grande diferença.

Quer isto dizer que temos, nesta altura, três contextos de utilização da rádio: um que se mantém analógico (FM); um eminentemente digital (que oscila entre o FM e a WEB, consoante se trata de driving time ou working hours) e outro, assumidamente digital, composto por indivíduos que escutam rádio na web e que dividem essa escuta entre rádio online (as que são também FM), web radio, serviços de música e os leitores áudio digitais, compondo assim, a sua banda sonora. Neste sentido, considerando que há já duas tendências de escuta de rádio/música online/digital, caberá à rádio encontrar o seu espaço neste domínio, servindo estes ouvintes que são, acima de tudo, grande consumidores de informação e conteúdos, ou seja, os utilizadores que podem garantir o futuro da rádio.

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