Clipping Marktest: Audiências de Rádio

É confrangedora a forma como as notícias são produzidas em Portugal. Se a fonte efectiva é a Marktest, ou se a informação que a mesma envia para a Lusa é posteriormente redigida não sei, mas o que está à vista é a forma como os jornais reproduzem o press release que lhes chegou à redacção sem analisarem ou interpretarem os dados.

  • Quando é o que jornalismo passou a ser equivalente a reprodução?
  • Quando é que o jornalismo passou a reger-se pela lei do menor esforço?

É mais honesto e credível uma simples reprodução da tabela das audiências produzida pela Marktest com uma descrição breve da mesma, do que a reprodução de uma pseudo-notícia que trata, de forma pouco correcta a informação. As notícias indicam explicitamente a fonte: Lusa.

  • Será que alguém é capaz de explicar ao jornalista que escreve estas notícias na Lusa, as características de um estudo como o Bareme Rádio?
  • Será que alguém é capaz de lhe explicar que esta comparação do “período homólogo” não quer dizer absolutamente nada, e que comparações desta natureza só deverão fazer-se em “períodos homólogos” substancialmente mais longos?


  • Será que alguém se importa de lhe explicar que um estudo de audiências que recorre à metodologia do Bareme Rádio apenas traduz tendências do comportamento de escuta, e que esses não devem ser comparados entre “períodos homólogos” trimestrais, por força de um variado conjunto de circunstâncias, nas quais se inclui a rotatividade da amostra?


  • Será que alguém se importa de lhe explicar que os resultados do Bareme não devem ser apresentados e descritos de forma semelhante aos resultados da audimetria de televisão?

Caso a notícia resulte directamente do press release da Marktest, então “algo” vai mal no departamento de comunicação desta empresa. O que talvez não seja necessariamente verdade, a avaliar pela nota de imprensa que a empresa distribui…

A Marktest deveria, de uma vez por todas, fazer uma acção de formação para jornalistas, para explicar a natureza e as características dos seus produtos de informação sobre audiências. É que ao ritmo a que a rádio “perde ouvintes”, admira-me que ainda tanta gente a esteja a ouvir….

Relativamente às audiências, e com base no que foi apresentado nos jornais, poderia apenas dizer-se que a RFM continua a liderar, a Comercial subiu ligeiramente e tem agora metade dos ouvintes da sua directa concorrente; Renascença, Cidade e RCP desceram; Best e Mega subiram e o grupo RDP mantém as audiências relativamente estáveis.

Vejamos então, como difere a análise, quando comparamos o ano de 2006 com o de 2005:

Audiência Acumulada de Véspera

Estações/ Ano

2005

2006

Diferença

RFM

13.2%

13%

– 0.2%

RR

10.4%

9.8%

– 0.6%

Comercial

6.6%

7.3%

0.7%

Total Rádio

58.9%

56.2%

-2,7/- 0.8%

(*) Nota no final do texto

Nestas condições, poder-se-à afirmar que, em relação ao ano anterior, a rádio perdeu 2.7% de AVV, o que quer dizer que menos 2.7% ouviram rádio na véspera. Para as rádios enunciadas, corresponde a uma descida na RFM e RR e uma subida na RC. Contas feitas, os números não correspondem aos anunciados 300 mil ouvintes que deixaram de ouvir rádio. Corresponde aproximadamente a 224 mil ouvintes, o que é uma diferença substancial e que, ainda assim, não pode ser interpretada isoladamente, pois um ano não é um período significativamente longo para fazer uma análise deste género. Ao longo dos últimos cinco anos, por exemplo, existiram oscilações entre trimestres e anos, sem que isso, tenha significado exactamente uma diminuição do número de ouvintes de rádio, recuperados no período ou ano seguinte:

2000: 56,3%

2001: 56,3%

2002: 54,7%

2003: 58,4%

2004: 58%

2005: 58,9%


2006: 56,2%

Conclusão: o título “Rádio perdeu 300 mil ouvintes”, parece-me relativamente estafado e recorrente, uma vez que sempre que a Marktest apresenta os resultados para um novo trimestre, as notícias começam com os verbos “perdeu” ou “recuperou”… Que meio tão volátil, a rádio…

Clipping:

JN

http://www.marktest.com/wap/clip/521f.pdf

DN

http://www.marktest.com/wap/clip/5208.pdf

http://www.marktest.com/wap/clip/5207.pdf

Público

http://www.marktest.com/wap/clip/5221.pdf

(*) NOTA: no decurso do e-mail enviado por um dos leitores deste weblogue, procedi a correcções na tabela uma vez que, por lapso, um dos valores estava errado. Ou seja, considerei a diferença de AAV da Comercial para a contagem da diminuição total de ouvintes. Contudo, se neste período a Comercial ganhou ouvintes, tal não poderia ser contabilizado para a diferença da descida. Esta correcção reforça a perspectiva inicialmente enunciada, de que afinal, a rádio não perdeu assim tanto ouvintes…

Obrigada, João de Sousa.

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