Banda larga para todos? É notícia nos meios de co…
27 06 2006É notícia nos meios de comunicação social a conclusão da cobertura do país em banda larga.
A PT celebra, inclusivamente, o facto de 99% dos seus clientes já ter acesso de banda larga e garante que, nas zonas de acesso difícil, os restantes 1%, serão progressivamente cobertos.
É mais um elemento para, como dizem as notícias, colocar Portugal no «pelotão da frente» dos países europeus com total acesso à Internet em banda larga…
Resta agora que os 99% por cento dos clientes se transformem em 99% da população, dado que, apesar da PT deter a maior percentagem de clientes dos serviços cabo, dos quais se destaca neste caso, o acesso à Internet, e da concorrência apresentar números interessantes no que respeita à expansão dos serviços de acesso à Internet, tal não significa que a totalidade da população tenha acesso a este tipo de serviço e, consequentemente, aos serviços e conteúdos disponíveis online.
Do ponto de vista da indústria de telecomunicações e, particularmente, conteúdos, a notícia pode ser interessante, pelas vantagens em termos do tipo de conteúdos que podem ser colocados na web, com a garantia do acesso rápido e eficaz. Do ponto de vista dos receptores, esta «conquista» não só vem tarde, como não significa necessariamente, mais e melhor acesso.
A velocidade actual está nos 4 Mbps, contra os anteriores 512 Kbps, um valor que se traduz num acesso francamente mais rápido.
Num país que, em traços gerais, apresenta níveis de literacia baixos, com cerca de 50% dos portugueses no nível mais baixo de literacia contra 1% da população nos níveis aos quais correspondem a capacidade de resolução de questões complexas, o facto da banda larga chegar a todos o país é importante, mas não determina, nem o acesso, nem a capacidade de utilização.
De acordo com informações relativas ao ano 2000 (estudo sobre literacia que envolveu 22 países da OCDE), 80% dos adultos portugueses não estão aptos a «entender e usar a informação escrita para atingir objectivos e desenvolver os seus conhecimento e capacidades», sendo que esta definição de literacia inclui entender e usar informação de textos, em folhas de pagamento, mapas e horários de transportes, e fazer operações aritméticas simples.
A título exemplificativo, Portugal e o Chile partilham maior percentagem de cidadãos (42%) com o nível mais baixo - aquele que corresponde a não conseguir determinar, a partir da leitura de um rótulo, que quantidade de medicamento tomar.
Na sua reflexão sobre os novos meios de comunicação de massas, Dominique Wolton explica que as novas tecnologias são veículos de outras formas de cultura e de criação da cultura contemporânea.
A verdade é que nos convencemos que as novas tecnologias existem para nos servir e por isso, renunciamos ao impacto que as mesmas têm nas nossas vidas. Wolton adianta que é indispensável não confundir nova tecnologia com nova cultura. O autor parte do princípio que a técnica está a sobrepor-se à comunicação, à forma como os homens comunicam entre si e à organização das relações colectivas. Explica que “as novas tecnologias não chegam para mudar a sociedade, ou seja, para modificar a organização social e o modelo cultural da comunicação”(1).
Chegará a banda larga para mudar a nosa sociedade? Irá a caixa de correio electrónico disponível nos CTT para todos os portugueses (1000 estações, para 150 computadores, dizia-se na TSF há poucos minutos…) transformar a forma como os 80% de iliterados se relacionam com a tecnologia?
Não serão necessárias novas políticas de investimento da qualificação escolar da população adulta, para melhorar os níveis de literacia, particularmente no quotidiano da vida dos cidadãos?
Numa outra perspectiva, a dos que têm acesso banda larga e são fervorosos adeptos das novas tecnologias, bem como dos gestores de media, a notícia será recebida com entusiasmo, pelas possibilidades que abre ao acesso e disponibilização de conteúdos, num modelo de comunicação que se distingue por ser hipermedia, ou seja, a aplição do multimedia (diversos meios simultaneamente, como escrita e audiovisual) em conjunto com a hipertextualidade (caminhos não-lineares de leitura do texto).
Na web, os media tradionais encontram um novo paradigma de comunicação que transforma a relação que estebelecem com a audiência, ou seja, do esquema de recepção passiva, passamos para outro de trocas interactivas e actualização permanente dos dados, no qual as audiências passam também a poder ser produtoras de comunicação, como o prova o fenómeno dos blogues, do podcast ou do vídeo, no iTube, mais recente novidade que permite que milhares de pessoas se transformem nos protagonistas dos seus próprios filmes.
E a rádio, o que está a fazer para captar esta nova geração que consome informação e lazer através da Internet e que, a partir de agora, está, em todo o país, com acesso banda larga?
1 WOLTON, 2000: 172.
Encontro-me fora do país mas estou dentro da realidade do mesmo. Obviamente não é a mesma coisa vivendo lá dentro.
Confesso que achei interessante este artigo como o é a ideia do choque tecnologico em Portugal. Talvez a minha análise do caso seja muito populista.
A banda larga está a chegar a todo o lado mas o grande problema é que nem em todo o lado todos a podem ter. Seria bom no essencial toda a população mais jovem, e não só, ter acesso pessoal à internet. Em países europeus usar a internet é como ter um telefone em casa. Em Portugal em muitos dos lares isso não é possível. Por outro lado quando se fala em choque tecnologico deveria, o governo, salvaguardar um pouco o interesse do cidadão. É certo que para se realizarem serviços de internet existe um preço. Certo, concordo. O que não concordo é com alguns preços elevados. Espero que se massifique o acesso à internet mas que o serviço minimo seja salvaguardado. Obviamente quem utiliza muito deve pagar mas não poderá ser penalizado com taxas de assinatura algo elevadas para as bolsas sobretudo do interior. Quanto a banda larga por todo o lado é bom.