A participação do público na construção da comunic…

25 05 2006

A participação do público na construção da comunicação mediática


Membros do público participaram em várias discussões online com repórteres e editores para debater e discutir a cobertura de importantes eventos”. (John Pavlik)

Finalmente, parece que estamos no caminho das ideias de Bertold Brecht que, nos anos 30, desenvolveu uma perspectiva geral para a comunicação actual, tendo por base a operacionalização política da rádio.

Brecht adoptou uma postura que enquadrava a rádio no campo da política, por esta se apresentar com enormes capacidades de comunicação e intervenção na vida pública. A apropriação que o nazismo e o fascismo fizeram da rádio, levaram Brecht a encarará-la como um meio com amplas possibilidades de utilização no campo ideológico, um instrumento capaz de operar transformações sociais a partir da operacionalização das suas mensagens. Salientou que a discursividade do aparelho comunicacional da rádio, resultou, em diferentes períodos da História, num sistema propagandístico com implicações que merecem ser estudadas, tanto pela forma da sua construção, como pelos efeitos que provocou e as respostas da audiência.

Transformar a rádio num meio de comunicação, alterando a sua natureza original de meio de distribuição, foi a principal ideia que Brech avançou na sua «Teoria da Rádio».

Esta proposta visava conferir aos assuntos públicos o carácter de coisa pública, organizando o meio por forma a transmitir e receber, envolvendo os ouvintes e ligando-os entre si, num esquema de comunicação mais aberto em que o ouvinte se tornava também num produtor de comunicação.

Assim, “la radio sería el más fabuloso aparato de comunicación imaginable de la vida pública, um sistema de canalización fantástico, es decir, lo sería si supiera no solamente transmitir, sino también recibir, por tanto, no solamente hacer oír al radio-escucha, sino tambiém hacerle hablar, y no aislarle, sino ponerse en comunicación con él. La radiodifusión debería en consecuencia apartarse de quienes la abastecen y constituir a los radioyentes en abastecedores”1. De acordo com Brecht, a rádio deveria fazer uso das suas possibilidades de interactividade, fomentando uma comunicação bilateral, que tomasse em consideração a contribuição dos ouvintes, num processo de intercâmbio comunicativo.

Hoje, a comunicação mediática desenvolve-se a outro nível e desenha um novo paradigma, dado que, na web, os media tradionais encontram um novo esquema de comunicação que transforma a relação que estebelecem com a audiência, ou seja, do esquema de recepção passiva, passamos para outro de trocas interactivas e actualização permanente dos dados, no qual as audiências passam também a ser produtoras de comunicação. E, neste sentido, as mudanças ocorrem não apenas na rádio… No contexto online, os meios concorrem entre si e recorrem às diferentes linguagens de cada meio para produzir páginas multimédia ricas em conteúdo e informação. A rádio deixa de ser só som, a imprensa passa a recorrer ao som e imagens em movimento e à televisão, podemos retirar a imagem…. No caso da imprensa, está está sob a ameaça da emergência de um novo medium. Face à emergência de um modelo de distribuição gratuita, teme-se que o jornal em papel se torne cada vez mais um produto de consumo para uma maioria que procurará comunicação, emoção e divertimento. Vários autores reflectem as suas preocupações neste sentido, face à vocação dos media em acompanhar as tendências de gosto do público ou as tendências que os meios com maiores níveis de audiência foram impondo, nivelando por baixo a oferta de conteúdos e programas, com maior destaque para o entretenimento e a distracção, aspecto que a maior parte dos elementos da audiência privilegia. Em paralelo, estão as edições online dos jornais em papel e outros, criados especialmente para a rede, pelo que o papel será apenas para aqueles que não têm possibilidade de o consultar na Internet (que está também cada vez mais disponível, pelo que alguns autores fazem depender a “morte” do impresso das condições de acessibilidade à rede e velocidade de utilização). Neste cenário, a par com a informação gratuita, de massas, estarão outro tipo de jornais, destinados a uma minoria que procurará uma informação de qualidade, que se manterá paga, tendencialmente cada vez mais cara.

A televisão, tal como a imprensa, tem sido o meio que mais tem perdido terreno em relação à Internet, por obrigar a um maior grau de atenção à sua mensagem. A rádio é, dos três, o único meio que pode acompanhar as nossas actividades. A rádio na Net prefigura-se como um sistema de transmissão e acesso à informação, que se sobrepõe às suas funcionalidades enquanto sistema de comunicação, mas não substitui a sua existência tradicional. Dos meios de comunicação ditos «clássicos», a rádio é o que apresenta maiores potencialidades para produzir e receber comunicação. No entanto, uma observação sobre a evolução da comunicação do meio demonstra que este teve sempre uma estrutura unidireccional, construída pela estação emissora em função do que se pensavam ser os interesses dos ouvintes. Pelas suas características técnicas e discursivas, a rádio é o meio de comunicação social com maiores potencialidades de interacção. Contudo, a univocidade da comunicação radiofónica tem sido uma das características mais criticadas ao longo da sua história, face às possibilidades de interactividade que o meio oferece. Somos obrigados a concordar com esta afirmação, pelo menos no que respeita à rádio em FM, que nunca explorou em absoluto as possibilidades de comunicação recíproca que a rádio pode desenvolver.

A interactividade na rádio tem estado muito associada à ideia de interacção, partilha e comunhão, revelada pela participação do ouvinte na construção da narrativa radiofónica. O efeito de proximidade do ouvinte à rádio, tem sido conseguido através do correio dos leitores, dos programas de discos pedidos que deixam à audiência o poder de decisão sobre a música de um determinado espaço da programação, dos passatempos e dos programas de antena aberta, expoente máximo desta ideia de interacção, pela forma como os ouvintes chegam ao ponto de interagir uns com os outros, ainda que de forma muito indirecta, respondendo e comentando as participações anteriores.

No campo da informática, a interactividade diz respeito ao grau de intervenção do utilizador no sistema informático através da introdução de dados e comandos. Se a interacção já era possível na rádio tal como a conhecíamos até aqui, através da Internet, a rádio desenvolve esta capacidade sustentada pelos sistemas multimédia de natureza interactiva, que permitem que o utilizador abandone uma postura passiva e passe a controlar a forma como recebe a informação, decidindo o que vai explorar e como o vai fazer. A não linearidade no acesso aos conteúdos altera o esquema de recepção, que antes era previamente determinado pelo emissor. O produtor deixa de monopolizar o consumo dos dados, deixando nas mãos do ouvinte/utilizador as definições do consumo da comunicação.

Autores que analisam a relação do jornalismo com a tecnologia são unânimes no que respeita à concepção da interactividade enquanto aspecto diferenciador entre os media online dos media tradicionais, no sentido em que permite a comunicação bi-direccional, através do correio electrónico e fóruns de discussão, meios que favorecem a ligação entre a comunicação de massas e a comunicação interpessoal. Actualmente, a participação do público para a construção da mensagem mediática revela-se ao nível da construção da notícia, em sites de natureza informativa ainda que não rigorosamente noticiosos, websites temáticos, muitas vezes com informação útil e actualizada, fóruns de discussão, weblogs de natureza diversa e podcasts de natureza igualmente diversa. E o que fazem os grandes media para aproveitar este interesse e capacidade de produção dos cibernautas? Muito pouco. As razões que se prendem com a complexa problemática do controlo da informação tem gerado variadas discussões em torno da liberdade de expressão face aos excessos e atentados à ordem e moral que, muitas vezes, têm ultrapassado os limites do bom senso. No entanto, as predições de vários autores começam a figurar-se cada vez mais realistas, no sentido em que o jornalismo irá, ou está, a confrontar-se com a possibilidade de cada um actuar como jornalista, pela facilidade de acesso às fontes e de disponibilização de conteúdos na Internet.

A Internet é um medium veiculador de vários media – organizações com objectivos especiais – e simultaneamente de conteúdos produzidos por utilizadores individuais”2. Os novos media, em especial os que são criados especificamente para a rede, e própria rede enquanto media, fazem desequilibrar o poder do emissor, por tornarem as fontes acessíveis a qualquer utilizador, de forma não mediada e independente do controlo da comunicação de massas. Se, por um lado, a Internet se apresenta com grande potencial para acesso à comunicação e informação, por outro, a falta de limites levanta questões pertinentes relativamente à autenticidade das informações encontradas, ao excesso de publicidade, pornografia e ao jogo, entre outros aspectos igualmente importantes. A decisão de integrar a produção individual no conteúdo dos media pode parecer revolucionária, pelos riscos inerentes, do ponto de vista da qualidade, usurpação das funções do jornalista e, em parte, pela possível substituição da sua figura. Contudo, no mundo online, a actividade de selecção, hierarquização, descodificação, contextualização, contrastação e interpretação de informação, está à partida diluída entre os jornalistas e todos os que têm capacidade desenvolver a sua própria interpretação, configurando cenários de carácter individual, a partir de fontes de informação partilhadas.

Sabe-se que os conceitos de qualidade e quantidade não são, naturalmente, sinónimos. Mais do que oferecer conteúdos em excesso, na web, os media deverão manter uma estratégia no sentido da procura de qualidade em detrimento da quantidade, mantendo-se a relação de dependência entre a empatia e a fiabilidade da informação para a fidelização dos cibernautas. Contudo, dado que na sua generalidade, os media portugueses na rede não fazem uso das potencialidades do hipermedia e do hipertexto, a apresentação de outro tipo de conteúdos, de produção paralela à equipa desse órgão de comunicação, poderia ser uma forma de dinamizar a oferta de conteúdos do órgão em questão, ampliando e diversificando os recursos da sua página online, com conteúdos seleccionados e editados pelos responsáveis do órgão e, portanto, mediada. Contudo, tal iniciativa pode significar um aumento da concorrência, desta feita, dentro do próprio meio de comunicação…

1 BRECHT «Teoria de la Radio», In BASSETS, 1981: 56.

2 BASTOS, 2000: 57.

Bibliografia:

BASSETS, Lluis, 1981, De Las Ondas Rojas a Las Radios Libres, Barcelona, Gustavo Gili

BASTOS, Helder, 2000, Jornalismo Electrónico, Coimbra, Minerva

PAVLIK, John, 2000, «The Impact of Technology on Journalism», Journalism Studies, vol. 1, n.º2


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2 respostas

25 05 2006
Anonymous

Moi interesante o escrito. En torno á reciprocidade, ao “feed back” na rádio do que falaba Bretch, quizais seja de interese a analise dos novos medios “horizontais” que están a agromar. Por ejemplo o http://www.chuza.org , portal no que as noticias se ordenan segundo a vontade dos internautas, sen mediación de redacción nengunha.

http://www.radiofene.org

26 05 2006
PC

Gracias!

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