NetFM de volta à rede (última parte) A ligação d…

10 05 2006

NetFM de volta à rede (última parte)

A ligação do ouvinte à rádio é um fenómeno em tudo semelhante à ligação do consumidor à marca, no sentido da relação de fidelidade que estabelece e da ligação emocional que desenvolve ao longo do tempo. A compreensão dos factores que determinam essa relação é fundamental para o desenvolvimento de um serviço, no caso da rádio, uma programação que satisfaça as necessidades do ouvintes e mantenha consistentes as suas expectativas do ponto de vista emocional. Note-se que podemos estar efectivamente satisfeitos com a qualidade dos serviços informativos prestados por uma estação e contudo, não conseguirmos desenvolver qualquer empatia com o indíviduo que conduz um determinado programa ou espaço horário. Assim, entender o nome da estação de rádio e o serviço que presta como uma marca é entendê-lo como um símbolo de consistência face à variedade e qualidade duvidosa da generalidade da oferta. Mais do que em qualquer área de negócio, no mercado da rádio, o envolvimento e associação são fundamentais para o desenvolvimento de uma afiliação privada e pessoal, conseguindo-se esta, através da programação, ao nível do tipo da sua construção e do género de conteúdos apresentados, ao que se junta uma estratégia de marketing para seduzir os ouvintes menos atentos ou sintonizados noutras frequências, levando-os à escuta da estação através da criação e projecção de conceitos atractivos mas simples, de forma clara e repetida. Aqueles que nos fazem gostar da rádio. Aqueles que fazem com que o nome da rádio ganhe significado. No fundo, que se assuma como uma marca.

Tal como em todos os domínios da comunicação, quando entendida como uma área de negócio, também a rádio depende da concretização de um projecto comercial que se deseja de elevada rentabilidade. Como tal, o desenvolvimento do mercado da rádio tem vindo a ser conduzido numa lógica de negócio, de procura de audiências e níveis de facturação, com naturais consequências ao nível da programação e programas da rádio, cada vez mais orientados para as audiências, sendo que esta preocupação implica que se vá ao encontro dos gostos e expectativas do público, correndo o risco de nivelar por baixo, negligenciando a «educação» em função da «distracção».
A história da comunicação social corresponde à dinâmica do confronto entre critérios jornalísticos e critérios financeiros para a construção do sistema mediático. Nesse sentido, e em traços muito gerais, assistimos, ao longo da última década, assistimos a uma passagem de um carácter político na estrutura dos media para um carácter económico. Os meios de comunicação social passaram a depender e a obedecer a regras de mercado que condicionam a orientação editorial, quer pela especialização dos media, quer pela introdução de um novo tipo de abordagem, mais generalista no sentido da sua superficialidade, espectacularização e, em inúmeros exemplos, sensacionalismo, acompanhado de programas de má qualidade ou programações formatadas e demasiado homogéneas.
Conceptualmente, o cenário apresenta-se esgotado para a rádio, como se o sistema de difusão analógico não tivesse mais nada a explorar, transferindo para o digital, a fonte de oportunidades para este meio. Em parte, a perspectiva que encerra o analógico em prol do digital resulta da própria evolução dos media, no sentido da sua total digitalização, ou seja, daquilo que para a rádio, pode ser o futuro, através da combinação do modelo actual com a diversidade de plataformas digitais que podem assumir dierentes combinações: difusão em frequência modelada e difusão online, telemóveis e podcasts. Por cá, não há ainda exemplos deste tipo de combinação, contudo, nos Estados Unidos as empresas de radiodifusão estão a promover novos canais digitais para que a concorrência passe do analógico para o digital, onde os ouvintes podem encontrar mais canais, maior variedade e melhor qualidade sonora. Da mesma forma, redes de difusão wireless, serviços que providenciam a escuta de rádio online estão a invadir o mercado norte americano, oferecendo aos consumidores uma nova variedade de conteúdos ao nível do entretenimento e de opções de escuta, que se quer mais atractiva que as existentes.
No contexto moderno da comunicação, em que os sistemas multimédia se assumem como uma via paralela de acesso à comunicação e informação e tendem, em algumas circunstâncias, a substituir os media ditos tradicionais, a rádio tem de recuperar a sua importância ao nível da programação de entretenimento, substituindo sequências infindáveis de música por esquemas relevantes para o ouvinte. Ou seja, antes de mais, é necessário compreender de que conteúdos é feita a programação da rádio e que objectvos se definem para cada um dos seus elementos. A habitual associação que se faz da música enquanto única fonte de entretenimento é absolutamente incompleta, fazendo apenas sentido pela utilização que hoje em dia dela se faz. Donde, a rádio utiliza a música não apenas como um dos elementos da sua linguagem, mas em substituição de alguns dos seus elementos, sendo o mais óbvio, a palavra. A música no seu aspecto instrumental tem significado em si e, quando combinada com outros sons e/ou palavras, funciona como um auxiliar para significar qualquer coisa para além do seu próprio significado. Sendo a música o elemento da linguagem rádiofónica que tem significado em si próprio para além do que ganha na associação dos restantes, esta tem vindo a ser utilizada apenas por esta sua característica, facilitando, mas empobrecendo, a construção da programação e a animação dos espaços horários.
A música, se associada à palavra, pode também ser informação, no sentido em que contribui para a formação do indivíduo.
Nos anos 60, Umberto Eco debruçou-se sobre as características da rádio, distinguindo-a a par com a televisão, como um meio técnico (transmissão de sons imagens à distância) e artístico. No seu entender, a rádio seria promotora de uma linguagem autónoma e criadora de novas possibilidades estéticas. Do ponto de vista da recepção, ao oferecer novas modalidades de audição, a rádio estaria a oferecer novos estímulos à sensibilidade, explorados pelos ouvintes de acordo com a sua maior ou menor preparação musical. Na verdade, a rádio tem construído a sua programação através da música, assumindo que assim, apresenta uma programação voltada para o entretenimento. Assim, se entretenimento é uma mera distracção, não será uma forma redutora de usar a música e demasiado pobre para o ouvinte, que, gradualmente se veio habituando a ter aquele ruído de fundo que até toca umas músicas «engraçadas»? Mais do que apenas isto, para sobreviver no contexto comunicacional que se avizinha, a rádio tem de ser mais do recreação musical e notícias à hora certa. A rádio tem de manter a sua utilidade e incrementá-la, ao mesmo tempo que nos faz ter de novo vontade de passar a tarde, ou a noite de ouvido colado à rádio…


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