Memórias do tempo em que era mais difícil mudar de…
2 09 2005Memórias do tempo em que era mais difícil mudar de estação de rádio, ou tempo da sintonia manual…
Sentei-me esta manhã para trabalhar e, como faço habitualmente, liguei o MP3 para ouvir rádio. Não só começa a ser cada vez mais difícil escolher uma rádio para ouvir noícias durante a manhã, como o espectro radiofónico me parece demasiado pequeno e, num ápice, percorri todas as memórias e estações que o MP3 consegue captar. Mesmo ligando o velho transístor com botão rotativo, para explorar as sintonias em FM, rapidamente estão todas percorridas e… desgastadas…
Questões de gosto à parte, este aspecto levou-me a pensar na forma como os novos dispositivos tecnológicos têm vindo a mudar o comportamento dos ouvintes.
Antes do RDS e da busca de sintonia digital, ouvir rádio dava um certo trabalho, não só para encontrar a estação pretendida na amálgama de frequências, como também, pela difícil correspondência entre a frequência e a numeração no painel do aparelho de rádio. O que, se por um lado dificultava o processo, por outro, aumentava a satisfação de encontrar a estação pretendida. Fidelizava igualmente alguns ouvintes, fosse por comodismo ou pelo receio de abandonar a sintonia e depois não conseguir voltar (o que como todos sabemos, também acontecia…). O que é facto é que, independentemente do processo que nos dias de hoje se vem generalizando, de reconhecimento de uma estação pela música que toca, as pessoas encontravam a «sua» estação e deixavam-na sintonizada durante muito tempo.
Hoje, as rádios definem-se mais pela sua música do que pelas vozes ou pelos conteúdos que acompanham a playlist. Diz-se que o principal objectivo da playlist é homogeneizar a estação ao longo do dia e facilitar o reconhecimento do ouvinte no primeiro minuto. Se, por um lado esta é uma decisão inteligente, por outro é igualmente perigosa, porque obriga a uma constante repetição de temas e artistas, para que os ouvintes consigam associar no primeiro minuto, um determinado estilo de programação musical ao nome da estação. E se, a repetição leva à memorização, pode também ser cansativa para os que, diariamente, escutam a estação. Por outro lado, as pessoas gostam mais do que já conhecem, do que lhes é familiar, talvez por isso, demorem algum tempo até se cansarem… Ainda assim, quer tudo isto dizer que, independentemente das estratégias utilizadas para fixar ouvintes a uma determinada estação, é-lhes tecnologicamente mais fácil, vaguear pelo FM. Esta música é feia, click. Não gosto de publicidade, click. Outra vez esta música, click e… e…. e… ao toque de um botão facilmente o ouvinte muda de estação!
Como combater esta questão?
A rádio vive o eterno dilema dos media: dar ao público o que ele quer, ou criar no público a vontade de querer alguma coisa? É mais fácil enveredar pela primeira hipótese. Estudam-se as audiências ao pormenor, avaliam-se gostos e fazem-se opções. Contudo, a longo prazo, tal obriga a estação a uma vassalagem em relação à instabilidade e volatilidade das audiências, a par com a constante mudança de conteúdos, não num sentido evolutivo, mas num sentido de acompanhamento do que as pessoas querem, de facto, ouvir, mesmo que isso não siga uma curva ascendente em termos de gosto ou preocupações estéticas e culturais.
A rádio vive o eterno dilema dos media: dar ao público o que ele quer, ou criar no público a vontade de querer alguma coisa? É mais fácil enveredar pela primeira hipótese. Estudam-se as audiências ao pormenor, avaliam-se gostos e fazem-se opções. Contudo, a longo prazo, tal obriga a estação a uma vassalagem em relação à instabilidade e volatilidade das audiências, a par com a constante mudança de conteúdos, não num sentido evolutivo, mas num sentido de acompanhamento do que as pessoas querem, de facto, ouvir, mesmo que isso não siga uma curva ascendente em termos de gosto ou preocupações estéticas e culturais.
Desenvolver uma estratégia continuada que acompanhe o gosto dos ouvinte e, ao mesmo tempo lhes desenvolva o desejo para consumir coisas novas dá muito mais trabalho, obriga a usar os mesmos estudos e conseguir avaliar, a partir dos dados obtidos, algo mais que os números não revelam. Obriga a um esforço de produção e pesquisa interna, à reciclagem e formação dos animadores que, para além de simples animação, se deviam dedicar um pouco mais à formação…. Deles, e dos seus ouvintes, sob pena dos «seus» ouvinte algum dia se tornarem nos ouvintes «dos outros».
cara Paula,
li com atenção e interesse os seus posts “pós-férias”, acompanhando com particular interesse as palavras (e os comentários)
acerca da TSF e do papel dos animadores na emissão.
de facto, já toda a gente percebeu, os animadores de continuidade não “mandam nada” na música que “atiram para o ar”.
as playlists, tal qual são desenhadas, reduzem ou anulam a vontade e a capacidade criativa de quem se senta em frente ao micro.
concordo com as playlists, enquanto linha de orientação da imagem sonora da estação, mas note que raramente as ideias de quem programa e de quem emite coincidem neste ponto.
reconheço que haja quem se desleixe na forma como “trata a música” escolhida pelos outros. mas sugere “formar os animadores”? experimente a Paula fazer formação em “operadora de betoneira”, para usar uma comparação propositadamente idiota; o que é que vai acontecer?
a Paula vai tornar-se uma péssima operadora da máquina, porque não gosta dela.
o problema central reside, na minha opinião, no divórcio existente entre a gestão/programação estética das rádios e as ideias/vontades dos animadores.
tenho a certeza que se fossem os animadores (sim, todo o grupo) a contruir e organizar a playlist das rádios (seguindo as directrizes da gestão), a música e a imagem global da rádio seria favorecida. é uma questão de sincronizar interesses, e potenciar assim o produto final.
este exemplo aplica-se em concreto à TSF: os animadores não são “tidos nem achados” na elaboração da playlist que têm de
promover horas a fio. anula-se pela base o principal motor da produtividade: a motivação.
saudações